Você sabe o que acontece todo dia 9 de agosto?
Em tese, o Brasil deveria parar pra lembrar de um compromisso que está lá no artigo 3º da Constituição Federal: construir uma sociedade livre, justa e solidária, erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais.
É o Dia Nacional de Mobilização pela Vida.
A data não surgiu do nada. Ela carrega o peso de um nome.
Herbert José de Sousa — o Betinho — sociólogo e ativista que morreu nesse mesmo dia, em 1997, por complicações da AIDS, contraída numa transfusão de sangue.
A hemofilia, ele herdou da mãe.
Quem sustenta essa data na prática? A lista é longa — e impressiona.
CNBB, Conic, Ibase, Instituto Ethos, Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional, entre muitas outras entidades.
Ou seja, não é uma data simbólica qualquer: tem gente grande por trás.
No Distrito Federal, a oficialização veio pela Lei Nº 2.928, de 6 de março de 2002.
Outras cidades do Brasil também adotaram a data.
O DF, aliás, já contava antes com o "Dia de Conscientização do Combate à Fome e à Miséria".
Pela mesma lei distrital, os Poderes Executivo e Legislativo do DF precisam publicar, todo ano até 9 de agosto, um Balanço Social referente ao ano anterior.
Esse documento deve registrar, de forma quantitativa e qualitativa, todas as iniciativas e ações voltadas ao combate à fome, à promoção da cidadania e à valorização da vida e da dignidade humana — conforme os objetivos do Art.
3º e nos termos do inciso X do art. 23 da Constituição Federal.
E o que esse balanço precisa trazer?
No mínimo, informações sobre recursos desembolsados e resultados concretos das iniciativas voltadas à população de baixa renda — tudo ligado aos direitos sociais do art.
6º da Constituição:
Herbert José de Sousa nasceu no norte de Minas Gerais, em 3 de novembro de 1935.
Ele e os dois irmãos — o cartunista Henfil e o músico Chico Mário — herdaram da mãe a hemofilia.
Desde criança, Betinho enfrentou problemas de saúde, como a tuberculose.
Cresceu em ambientes que pouca gente chamaria de comuns: a penitenciária e a funerária onde o pai trabalhava.
Porém, foram os padres dominicanos, com quem teve contato na década de 1950, que moldaram boa parte da sua formação.
Ou seja, a vida de Betinho já nasceu fora do roteiro.
Talvez por isso tenha integrado a JEC (Juventude Estudantil Católica) e a JUC (Juventude Universitária Católica).
Em 1962, fundou a AP (Ação Popular), da qual foi coordenador até 1964.
O golpe militar de 1964 empurrou Betinho pra resistência contra a ditadura — sem largar, claro, as causas sociais.
Porém, com o endurecimento da repressão, foi obrigado a se exilar no Chile em 1971.
Lá, assessorou Salvador Allende até a deposição do presidente em 1973.
Quando veio o golpe de Augusto Pinochet, Betinho escapou e se refugiou na embaixada panamenha.
Depois morou no Canadá e no México.
Esse período mudou — e endureceu — suas convicções sobre democracia.
Pra Betinho, democracia de verdade e capitalismo simplesmente não cabiam na mesma sala.
Uma homenagem marcou essa fase.
Na canção "O Bêbado e a Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc, gravada por Elis Regina, Betinho aparece como "o irmão do Henfil": "Meu Brasil / que sonha com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu…" — um verso que virou símbolo da Campanha pela Anistia aos presos e exilados políticos.
Anistiado em 1979, Betinho voltou.
Em 1981, ao lado dos economistas Carlos Afonso e Marcos Arruda, fundou o Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e mergulhou na luta pela reforma agrária, tornando-se um dos seus principais articuladores.
Em 1990, conseguiu reunir milhares de pessoas no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, numa manifestação pela causa.
Também integrou as forças que resultaram no impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.
Mas o projeto pelo qual Betinho se imortalizou foi, provavelmente, a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida — um movimento em favor dos pobres e excluídos.
A ONG promovia, entre outras ações, o "Dia Nacional do Quilo" no começo de novembro, dentro da programação da "Campanha Natal sem Fome", arrecadando alimentos e levantando discussões sobre o problema da fome no Brasil.
Em 1986, Betinho descobriu que havia contraído o vírus da AIDS numa das transfusões de sangue.
Na vida pública, o diagnóstico se transformou em causa: criou movimentos de defesa dos direitos dos portadores do vírus e fundou a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, que presidiu até a morte.
Dois dos seus irmãos, Henfil e Chico Mário, morreram em 1988 pela mesma doença.
A dor era real. Mas Betinho não parou.
Ficou ativo até o fim — e repetia que a condição de soropositivo o forçava a "comemorar a vida todas as manhãs". Uma frase que diz tudo.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: