Três irmãos, a mesma herança — a hemofilia da mãe.
Herbert, o cartunista Henfil e o músico Chico Mário dependiam de transfusões de sangue a vida toda.
Foi por aí que o HIV chegou para todos eles.
Mas Herbert José de Sousa não ficou esperando a morte.
O que você faria ao descobrir que tem poucos anos de vida?
Betinho, como todo mundo o conhecia, transformou cada ano de sobrevivência num ato político.
Nasceu em 3 de novembro de 1935, no norte de Minas Gerais.
O pai trabalhava numa penitenciária e numa funerária — foi entre a morte e o confinamento que Betinho cresceu.
Além da hemofilia, enfrentou tuberculose na infância. Essa combinação poderia ter formado um homem resignado.
Formou um militante.
Da fé para a militância foi um passo curto.
Integrou a JEC (Juventude Estudantil Católica) e a JUC (Juventude Universitária Católica).
Em 1962, fundou a AP — Ação Popular — e coordenou o movimento até 1964.
O golpe militar de 1964 mudou tudo.
Betinho resistiu enquanto pôde, mas com o aumento da repressão foi obrigado a se exilar no Chile em 1971.
Lá, assessorou Salvador Allende até o golpe de Pinochet, em 1973.
Escapou refugiando-se na embaixada panamenha, e depois morou no Canadá e no México.
Nesse período suas convicções sobre democracia se aprofundaram.
Por isso, ele julgava que democracia e capitalismo eram simplesmente incompatíveis — não como provocação intelectual, mas como conclusão vivida na prática.
A música "O Bêbado e a Equilibrista", de João Bosco e Aldir Blanc, gravada por Elis Regina à época da Campanha pela Anistia aos presos e exilados políticos no Brasil, o homenageou diretamente com o verso: "Meu Brasil / que sonha com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu…"
Anistiado em 1979, voltou ao Brasil.
Em 1981, com os economistas Carlos Afonso e Marcos Arruda, Betinho fundou o IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas).
Passou a articular a luta pela reforma agrária e conseguiu reunir, em 1990, milhares de pessoas no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, numa manifestação pela causa.
Além disso, integrou as forças que resultaram no impeachment de Fernando Collor de Mello.
O projeto que o imortalizou, porém, foi a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.
A ONG organizou o "Dia Nacional do Quilo", realizado todo começo de novembro dentro da programação da Campanha Natal sem Fome, com arrecadação de alimentos e discussões sobre o problema da fome no Brasil.
Em 1986, Betinho descobriu que havia contraído o HIV numa das transfusões de sangue.
Qualquer pessoa quebraria. Betinho não.
Na vida pública, isso se desdobrou na criação de movimentos de defesa dos direitos dos portadores do vírus.
Junto com outros membros da sociedade civil, fundou e presidiu a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS até o fim da vida.
Henfil e Chico Mário morreram em 1988, pela mesma causa.
Betinho sobreviveu até 9 de agosto de 1997.
Mesmo soropositivo, não desacelerou.
Dizia que a condição o forçava a "comemorar a vida todas as manhãs".
Quantas pessoas precisam de uma sentença de morte para aprender a fazer o mesmo?
O 9 de agosto foi institucionalizado no Estado de São Paulo como o Dia da Mobilização no Combate à Fome e pela Vida.
Uma lei não ressuscita ninguém — mas pode manter viva a memória do que uma pessoa fez com o tempo que tinha.
Betinho teve menos tempo do que merecia, e fez mais do que a maioria faria com uma vida inteira. O que você vai fazer com a sua?
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: