Em 8 de agosto de 1970, no bairro da Liberdade, em São Paulo, um mestre coreano chamado Sang Min Cho abriu as portas do que seria a primeira academia de Taekwondo no Brasil — a atual Academia Liberdade.
Essa data virou referência — e não é à toa.
Tanto que a cidade de São Paulo oficializou o dia 8 de agosto como o Dia do Taekwondo, por meio da Lei Nº 14.798 de 2008, que alterou a Lei Nº 14.485 de 2007.
A ideia: celebrar com homenagens e eventos de divulgação da modalidade.
Mas quem foi Sang Min Cho?
A biografia escrita por Eduardo Infante mostra que a trajetória de Sang Min Cho vai muito além do Taekwondo e das artes marciais.
Ele cresceu numa Coreia ocupada pelos japoneses, atravessou a Segunda Guerra Mundial e sobreviveu à Guerra da Coreia — um conflito sangrento que marcou toda uma geração.
Foram anos de fome e tristeza.
Mesmo com tudo isso, Cho aprendeu a lutar.
Tornou-se um dos mestres mais respeitados do mundo e ajudou a criar e estruturar o Taekwondo como conhecemos.
Foi instrutor das primeiras turmas de mestres formados na Coreia do Sul, com a missão de espalhar a arte marcial pelo planeta.
Treinou também as forças armadas coreanas e a KCIA (Agência Central Coreana de Inteligência), o equivalente coreano da CIA americana.
O governo sul-coreano enviou Cho ao Brasil para introduzir oficialmente o Taekwondo no país, a pedido de Choi Hong Hi — militar sul-coreano e idealizador da arte marcial, segundo a Federação Internacional de Taekwondo, mais conhecido como General Choi.
Poucos meses depois de pisar em solo brasileiro, Cho já inaugurava a primeira academia de Taekwondo no Brasil.
O Taekwondo é uma arte marcial que deu origem a um esporte de combate.
Mas de onde veio o Taekwondo, afinal? Aí a coisa complica. Alguns pesquisadores defendem que a base foi quase inteiramente o Karatê.
Outros apontam para artes marciais coreanas antigas: Taekkyeon e Subak.
E há ainda quem veja uma fusão entre estilos coreanos e estrangeiros.
Para entender essa história, vale voltar bastante no tempo.
Na Coreia antiga, existiam três reinos: Koguryeo, Paek-Je e Silla.
Silla acabou dominando toda a Coreia e se manteve no poder até 1392, quando a dinastia Yi assumiu.
Durante sua hegemonia, o Reino de Silla criou os Hwarang — guerreiros que estudavam história, filosofia confuciana, ética e moral budista.
As primeiras artes marciais coreanas nasceram da fusão dos estilos de luta praticados por esses três reinos.
A mais popular era o Taekkyeon, um segmento do Subak.
Por mais rica que fosse essa tradição, as artes marciais coreanas quase sumiram no final da Dinastia Joseon.
A sociedade ficou altamente centralizada, e lutar passou a ser malvisto num ambiente que valorizava reis-eruditos.
Joseon consolidou seu domínio absoluto sobre a Coreia, fortaleceu ideais confucionistas e importou cultura chinesa.
Mas a dinastia enfraqueceu no final do Século XVI e início do XVII — invasões do Japão e da Dinastia Qing devastaram a península, empurrando a Coreia para um isolamento cada vez mais severo.
O país ficou conhecido como o Reino Eremita.
O Taekkyeon, porém, resistiu.
E sobreviveu até o final do Século XIX.
Durante a ocupação japonesa (1910–1945), houve supressão sistemática da cultura coreana.
Quando a ocupação terminou em 1945, as escolas de artes marciais — os Kwans — começaram a abrir, e a arte marcial coreana ressurgiu como símbolo de renascimento.
O Taekkyeon ganhou impulso e se tornou requisito para ingressar na vida militar coreana.
Nesse mesmo período, alguns dos progenitores do Taekwondo foram enviados ao Japão, tendo contato com artes marciais japonesas, enquanto outros seguiram para a China e a Manchúria.
O Taekwondo estreou nos Jogos Olímpicos de 1988 como esporte de exibição.
Manteve esse status em 1992. Em 1993, entrou oficialmente no Programa Olímpico, passando a competir de verdade a partir dos Jogos de 2000.
Ou seja, o Taekwondo explodiu: mais de 70 milhões de praticantes espalhados por todos os continentes — uma das maiores modalidades olímpicas do mundo.
E tudo começou com um mestre coreano abrindo as portas de uma academia no bairro da Liberdade.
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