Você sabia que todo 27 de março o mundo inteiro para pra celebrar o teatro? Pois é — o Dia Mundial do Teatro existe desde 1961 e tem uma história que vale conhecer. A data nasceu em Viena, em 1961, durante o 9º Congresso Mundial do Instituto Internacional do Teatro (ITI), ligado à UNESCO. Quem propôs foi o finlandês Arvi Kivimaa — escritor, poeta e diretor — com apoio dos centros escandinavos. A aprovação? Por aclamação.
E o que acontece nesse dia? Eventos teatrais pelo mundo inteiro — nacionais e internacionais. Mas tem uma tradição que se destaca: a Mensagem Internacional do Dia Mundial do Teatro. O ITI convida uma grande personalidade mundial para compartilhar reflexões sobre teatro e cultura de paz. A primeira dessas mensagens foi escrita pelo francês Jean Cocteau, em 1962.
A escolha da data não foi aleatória. O objetivo era marcar a abertura das temporadas internacionais no Teatro das Nações, em Paris, iniciadas em 27 de março de 1954. O primeiro Festival Internacional ali aconteceu em 1957, organizado pelos Centros do ITI e pela comunidade teatral internacional.
Teatro vem do grego théatron. Mas o que isso significa na prática? É uma forma de arte onde atores interpretam uma história para um público, em um espaço determinado. Dramaturgos, diretores, técnicos — e às vezes pura improvisação — se juntam para criar um espetáculo que desperta sentimentos em quem assiste. A palavra também nomeia o edifício físico onde tudo isso acontece, servindo ainda para dança, recitais e outras apresentações.
Aqui a coisa fica nebulosa. Segundo Oscar G. Brockett, autor de History of the Theatre, nenhuma teoria sobre a origem do teatro pode ser comprovada de fato. Ou seja, há poucas evidências e muita especulação. Antropólogos do final do século XIX e início do XX levantaram a hipótese de que o teatro teria surgido dos rituais primitivos. Outras teorias apontam para a contação de histórias, ou para o desenvolvimento a partir de danças, jogos e imitações.
Os rituais na história humana teriam começado por volta de 80.000 anos a.C. O primeiro evento com diálogos registrado seria uma apresentação anual de peças sagradas sobre o mito de Osíris e Ísis, por volta de 2500 a.C., no Antigo Egito — a história da morte e ressurreição de Osíris e a coroação de Horus.
A palavra "teatro" como conceito independente da religião só apareceu na Grécia de Pisístrato, entre 540 e 527 a.C. Esse tirano ateniense criou uma dinâmica de produção para a tragédia que permitiu o desenvolvimento das especificidades dessa modalidade. As representações mais conhecidas e a primeira teorização sobre teatro vieram dos gregos — a obra mais antiga de que se tem notícia é a Poética de Aristóteles.
Aristóteles dizia que a tragédia nasceu de improvisações feitas pelos líderes dos ditirambos, um hino cantado e dançado em honra a Dioniso, deus da fertilidade e do vinho. O ditirambo, como descreve Brockett, provavelmente consistia de uma história improvisada cantada pelo líder do coro e um refrão tradicional cantado pelo coro. Quem transformou isso em "composição literária" foi o poeta lírico grego Arion (de duvidosa existência histórica), o primeiro a registrar ditirambos por escrito e dar títulos a eles.
As formas teatrais orientais foram registradas por volta de 1000 a.C., com o drama sânscrito do antigo teatro hindu. O que poderíamos chamar de "teatro chinês" data da mesma época. Já as formas japonesas — Kabuki, Nô e Kyogen — só têm registros a partir do século XVII d.C.
O primeiro diretor de coro conhecido foi Téspis, convidado oficialmente por Pisístrato para dirigir a procissão de Atenas. Téspis desenvolveu o uso de máscaras para representar — com tanta gente participando, era impossível que todos ouvissem os relatos, mas podiam visualizar o sentimento da cena pelas máscaras.
O "coro" era composto pelos narradores da história, os rapsodos, que através de representação, canções e danças relatavam as histórias do personagem. Funcionava como intermediário entre ator e espectador, trazendo pensamentos e sentimentos à tona, além da conclusão da peça. Podia ainda haver o "Corifeu", um representante do coro que se comunicava diretamente com a plateia.
Em uma dessas procissões, Téspis inovou: subiu em um tablado (o thymele, ou altar) para responder ao coro. Tornou-se o primeiro hypócrites — respondedor de coro — e assim nasceram os diálogos.
No Brasil, o teatro apareceu por volta do século XVI, movido pela propagação da fé religiosa. O nome que mais se destaca é o do padre jesuíta José de Anchieta, que escreveu autos — antigas composições teatrais — voltados à catequização dos indígenas e à integração entre portugueses, índios e espanhóis. O Auto de São Lourenço, escrito em tupi-guarani, português e espanhol, é um exemplo claro disso.
Dois séculos inteiros separam a atividade teatral jesuítica do próximo capítulo do teatro brasileiro. Por quê? Porque durante os séculos XVII e XVIII, o país estava ocupado demais com a colonização e com batalhas de defesa do território colonial. Não havia espaço para palcos.
Foi a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, que trouxe progresso real para o teatro brasileiro — consolidado depois pela Independência, em 1822.
João Caetano fez algo que ninguém antes havia feito: estimulou a formação de atores no Brasil e valorizou de verdade o trabalho desses artistas. Em 1833, formou uma companhia brasileira. E seu nome está ligado a dois marcos da dramaturgia nacional:
Os ecos da modernidade chegaram ao teatro brasileiro com Oswald de Andrade, cuja produção teatral concentrou-se na década de 1930. O Rei da Vela se destaca — mas só foi encenada nos anos 1960, por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, um dos principais diretores, atores, dramaturgos e encenadores do país.
O marco do teatro moderno brasileiro, porém, é a encenação de Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues. Um divisor de águas. Não só na dramaturgia, mas também na encenação — em pleno Estado Novo.
A partir daí, o cenário mudou de vez. Surgiram grupos e companhias estáveis de repertório que transformaram o teatro brasileiro. Os mais significativos, da década de 1940 em diante: Os Comediantes, o TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), o Teatro Oficina, o Teatro de Arena, o Teatro dos Sete e a Companhia Celi-Autran-Carrero, entre outros. O palco brasileiro, enfim, tinha encontrado sua voz.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: