Abelardo Pinto nasceu dentro de um circo. Literalmente.
Era 27 de março de 1897, e o circo estava armado na rua Barão do Amazonas, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo — pertencia aos seus pais, Galdino Pinto e Clotilde Farnesi, artista especializada em tiro ao alvo.
Que começo mais adequado para o maior palhaço do circo brasileiro.
Impossível inventar melhor.
O dia 27 de março é comemorado como Dia do Circo e do Artista Circense no Estado de Pernambuco, por força da Lei Nº 12.120 de 3 de dezembro de 2001 — baseada na data já celebrada em São Paulo.
A escolha não é coincidência: é o aniversário de Piolin, tido como grande representante do meio circense pela criatividade cômica e pela habilidade prodigiosa como ginasta e equilibrista.
Abelardo foi contorcionista, acrobata, ciclista e músico — tocava violino e bandolim.
Irmão de Anchises e Raul, começou no Circo Americano ainda criança, passando por diferentes atividades.
Mas o palhaço era o que ele realmente era.
Por volta de 1917, passou a fazer o personagem Careca.
Logo mudou para Piolin — apelido que vem do espanhol e se refere a um tipo de barbante, uma alusão bem-humorada ao seu físico: magro, de pernas compridas.
Em 1929, Abelardo incorporou o apelido ao nome de batismo e virou Abelardo Pinto Piolin oficialmente.
Casou-se com Benedita França, com quem teve cinco filhos: Aylor, Áurea, Ayola — que se casou com Nelson Garcia, o Figurinha —, Albertina e Ariel, que mais tarde se tornaria atriz de televisão.
O sucesso veio no Circo Irmãos Queirolo, no início dos anos 1920.
Piolin substituiu Chicharrão nas cenas cômicas ao lado de Harrys e Chic-Chic — e o público não tardou a reconhecer que havia algo diferente ali.
Em 1925, associou-se a Alcebíades Pereira e juntos instalaram o circo no Largo do Paissandu, em São Paulo.
Foi ali que Piolin viveu sua fase de glória.
Washington Luiz, presidente da República deposto pela Revolução de 1930, era fã declarado e tinha cadeira cativa todas as quintas-feiras.
Os intelectuais da Semana de Arte Moderna de 1922 também frequentavam o circo com assiduidade — Piolin era para eles o que o samba era para a música: puro Brasil.
Escreviam sobre ele em jornais e revistas, apontando-o como exemplo de artista genuinamente popular.
Em 1929, no dia do seu aniversário, os modernistas o homenagearam com um almoço chamado de "Festim Antropofágico".
A lógica era simples: já que os antropófagos comiam o inimigo para adquirir suas qualidades, "comer Piolin" era uma consagração.
Provavelmente uma das homenagens mais inusitadas da história da cultura brasileira.
Por mais de 30 anos, Piolin manteve seu circo na capital paulista — primeiro no Largo do Paissandu, depois nos bairros do Brás, Paraíso e Marechal Deodoro, e por fim na Avenida General Osório da Silveira.
Dezoito anos no mesmo lugar.
Hoje tem um bingo lá.
Em 1961, porém, o IAPC — Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários — o despejou.
O motivo alegado foi a construção de um hospital. Nada foi erguido no local até o início da década de 1980.
Ou seja, o motivo alegado nunca existiu de fato.
O despejo de Piolin virou símbolo do descaso dos poderes públicos com o circo no Brasil.
Em 1972, Pietro e Lina Bo Bardi organizaram a exposição do cinquentenário da Semana de Arte Moderna — e não esqueceram de Piolin.
Armaram o Circo Piolin no Belvedere do MASP. A homenagem o animou tanto que ele comprou um circo e voltou a viajar.
Mas o corpo já não acompanhava.
Abelardo Pinto Piolin morreu de insuficiência cardíaca em 4 de setembro de 1973, depois de se engasgar com uma bala.
Uma multidão acompanhou seu enterro nas alamedas do Cemitério da Quarta Parada.
Em 1975, a Travessa do Paissandu passou a se chamar Rua Abelardo Pinto Piolin.
Três anos depois, em 1978, o grande sonho de Piolin se tornou realidade: a criação da primeira escola de circo do Brasil, batizada de Academia Piolin de Artes Circenses.
Sem apoio do poder público, encerrou as atividades em 1983.
Porém serviu de exemplo e inspiração para as muitas escolas de circo que existem no Brasil hoje. É um legado silencioso — mas real.
Quantos palhaços, acrobatas e equilibristas passaram por escolas que só existem porque Piolin sonhou primeiro?
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