Você sabe por que o Dia do Circo é comemorado em 27 de março?
Porque nessa data, em 1897, nasceu dentro de uma lona em Ribeirão Preto o homem que definiria o que é ser palhaço no Brasil.
O dia foi instituído pela Lei Nº 2.833, de 12 de maio de 1981, que alterou a Lei Nº 129, de 11 de julho de 1973 e substituiu a data anterior — que era 15 de março.
São Paulo também tem o Dia do Artista Circense, e Pernambuco vai além: celebra o Dia do Circo e do Artista Circense junto.
Mas a origem de tudo está naquele homem magro, de pernas compridas, que cresceu embaixo da lona.
Seus pais eram Galdino Pinto, empresário, e Clotilde Farnesi, artista circense especializada em tiro ao alvo.
O circo era o único mundo que ele conhecia.
Começou cedo, no Circo Americano, e foi passando por tudo: contorcionismo, acrobacia, ciclismo — tocava violino e bandolim com a mesma facilidade com que se equilibrava numa corda.
Era um ginasta e equilibrista fora do comum, e tinha um senso cômico que não se ensinava.
Por volta de 1917, passou a fazer o personagem Careca.
Logo mudou para Piolin, apelido que vem do espanhol e se refere a um tipo de barbante — uma brincadeira com sua silhueta de magro e pernas compridas.
Em 1929, incorporou o apelido ao nome de batismo: Abelardo Pinto Piolin.
Tinha dois irmãos — Anchises e Raul — e casou-se com Benedita França, com quem teve cinco filhos: Aylor, Áurea, Ayola — casada com Nelson Garcia, o Figurinha —, Albertina e Ariel, que se tornou atriz de televisão.
No início dos anos 1920, no Circo Irmãos Queirolo, Piolin começou a fazer sucesso de verdade — substituindo Chicharrão, passou a dividir as cenas cômicas com Harrys e Chic-Chic.
Em 1925, associou-se a Alcebíades Pereira e instalou o circo no Largo do Paissandu, em São Paulo.
Foi ali que viveu sua fase de glória.
Washington Luiz, presidente da República deposto pela Revolução de 1930, era fã assumido: tinha cadeira cativa todas as quintas-feiras.
Os intelectuais da Semana de Arte Moderna não apenas assistiam ao espetáculo — escreviam sobre ele, celebrando-o como o artista mais genuinamente brasileiro que existia.
Em 1929, no seu aniversário, os modernistas o homenagearam com um almoço chamado de "Festim Antropofágico" — comer Piolin, na lógica deles, era absorver o que havia de mais genuíno na cultura brasileira.
Pense bem: num país que ainda discutia o que era arte, um palhaço de circo virou símbolo nacional.
Por mais de 30 anos, Piolin manteve circo armado na capital paulista — primeiro no Largo do Paissandu, depois nos bairros do Brás, Paraíso e Marechal Deodoro, e por fim na Avenida General Osório da Silveira, onde ficou por 18 anos.
No local funciona hoje um bingo.
Em fins de 1961, o IAPC — Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários — o despejou.
O motivo oficial era a construção de um hospital. Ou seja: nada foi erguido no local até o início dos anos 1980.
O despejo de Piolin virou símbolo do descaso do poder público com o circo no Brasil.
Em 1972, Pietro e Lina Bo Bardi, organizadores da exposição do cinquentenário da Semana de Arte Moderna, armaram o Circo Piolin no Belvedere do MASP.
As homenagens animaram o palhaço: ele comprou um circo, voltou a viajar, mas problemas de saúde o forçaram a parar.
Abelardo Pinto Piolin morreu de insuficiência cardíaca em 4 de setembro de 1973, depois de se engasgar com uma bala.
Uma multidão foi ao Cemitério da Quarta Parada acompanhar seu enterro.
Em 1975, a Travessa do Paissandu ganhou o nome de Rua Abelardo Pinto Piolin — como se a rua precisasse lembrar o que a cidade preferiu esquecer.
Em 1978, seu maior sonho virou realidade: a Academia Piolin de Artes Circenses, a primeira escola de circo do Brasil.
Sem apoio do poder público, encerrou as atividades em 1983. Mas a semente já estava plantada.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: