Edson Luís de Lima Souto nasceu em 24 de fevereiro de 1950 em Belém do Pará, numa família pobre.
Estudou na Escola Estadual Augusto Meira, na capital paraense, e foi parar no Rio de Janeiro cursando o 2º Grau no Instituto Cooperativo de Ensino.
Secundarista.
Não era liderança conhecida, não era militante — era só um aluno com fome que queria que o preço do bandejão não subisse.
Os estudantes do Rio estavam organizando uma passeata-relâmpago para aquele fim de tarde.
Por volta das 18 horas, a Polícia Militar chegou e dispersou quem estava na frente do complexo.
Os estudantes se refugiaram dentro do restaurante e responderam à violência com paus e pedras. Os policiais recuaram.
A rua ficou deserta.
Quando a PM voltou, tiros começaram a sair do edifício da LBA — Legião Brasileira de Assistência.
O pânico tomou conta e os estudantes fugiram.
Os policiais invadiram o restaurante.
Foi aí que o aspirante Aloísio Raposo, comandante da tropa, atirou e matou Edson Luís com um tiro a queima-roupa no peito.
Outro estudante, Benedito Frazão Dutra, foi levado ao Hospital Souza Aguiar, mas também não resistiu. Mais seis ficaram feridos no tiroteio.
O registro de ocorrência nº 917 da 3ª Delegacia de Polícia do Rio documenta cada nome — como se listar fosse o suficiente: Telmo Matos Henriques, Benedito Frazão Dutra, Antônio Inácio de Paulo, Walmir Gilberto Bittencourt, Olavo de Souza Nascimento e Francisco Dias Pinto.
Os estudantes sabiam o que o regime militar fazia com provas inconvenientes — mas dessa vez não deixaram.
Por isso não deixaram o corpo ser levado para o IML. Carregaram Edson Luís em passeata diretamente para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A necrópsia foi feita no próprio local pelos médicos Nilo Ramos de Assis e Ivan Nogueira Bastos, na presença do Secretário de Saúde do Estado.
O óbito de nº 16.982 teve como declarante o estudante Mário Peixoto de Souza.
O Rio parou no dia do enterro.
Cinquenta mil pessoas acompanharam o cortejo à luz de velas. Edson Luís foi enterrado ao som do Hino Nacional, cantado pela multidão.
Na Cinelândia, os cinemas amanheceram anunciando três filmes escolhidos a dedo: A Noite dos Generais, À Queima-Roupa e Coração de Luto.
Coincidência? Dificilmente.
Cartazes espalhados por toda a parte: "Bala mata fome?", "Os velhos no poder, os jovens no caixão", "Mataram um estudante.
E se fosse seu filho?"
O velório foi só o começo.
Da Igreja da Candelária até as faculdades de São Paulo, os protestos se espalharam pelo país — ou seja, um tiro no Calabouço virou combustível em cada esquina.
Em São Paulo, 4 mil estudantes foram às ruas na Faculdade de Medicina da USP.
Houve manifestações também no Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade São Francisco, na Escola Politécnica da USP e na PUC-SP.
Depois da missa da manhã, quem saía da igreja foi atacado pela cavalaria da PM com golpes de sabre.
Dezenas de feridos.
O governo militar proibiu a missa da noite — mas o vigário-geral Dom Castro Pinto insistiu em realizá-la e celebrou com cerca de 600 pessoas.
Do lado de fora: três fileiras de soldados a cavalo com sabres desembainhados, o Corpo de Fuzileiros Navais e agentes do DOPS.
Os padres saíram de mãos dadas, formando um corredor da porta da igreja até a Avenida Rio Branco para que todos pudessem sair sem ser atacados.
A cavalaria esperou. Esperou todo mundo sair. Aí encurralou todos nas ruas da Candelária.
Mais dezenas de feridos.
A morte de Edson Luís marcou o começo de um ano que o regime não conseguiu mais controlar.
As mobilizações foram crescendo. E crescendo.
Até o governo decretar o AI-5 — Ato Institucional Nº 5 — como resposta ao que não conseguia mais suprimir.
Por isso 28 de março virou data oficial.
O Dia de Luta dos Estudantes Secundaristas foi instituído no Rio de Janeiro pela Lei Nº 955 de 27 de abril de 1987, ratificada pela Lei Nº 5.146 de 7 de janeiro de 2010.
O Pará celebra o Dia da Liderança Jovem na mesma data. São Paulo criou o Dia Estadual do Grêmio Livre Estudantil.
O estado do Rio de Janeiro tem ainda o Dia Estadual da Juventude.
Edson Luís tinha 18 anos, estava com fome e queria protestar.
Guarde esse nome.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: