Uma lei de 16 de setembro de 1970 criou, no Estado de São Paulo, o Dia da Integração Nacional — comemorado todo 31 de março.
A data não foi escolhida por acaso.
Por que justamente 31 de março?
O 31 de março marca, quase certamente, a tomada do poder pelos militares brasileiros em 1964.
Um regime que durou cerca de 30 anos, até meados dos anos 1980.
O que aconteceu naquele 31 de março ficou conhecido como o Golpe de Estado de 1964: um conjunto de eventos que culminou, no dia 1º de abril, com a derrubada de João Belchior Marques Goulart — o Jango —, presidente eleito democraticamente pelo PTB, o Partido Trabalhista Brasileiro.
Os militares e os defensores do regime preferem outro nome: "Revolução de 1964" ou "Contrarrevolução de 1964".
Todos os cinco presidentes militares que se sucederam se declararam herdeiros dessa revolução.
A historiografia brasileira mais recente, porém, discorda — e vai além: defende que o golpe não foi exclusivamente militar, mas civil-militar.
O apoio veio de vários lados — e de onde menos se esperava.
Grandes proprietários rurais, industriais, classes médias e até setores da Igreja Católica.
Uma marcha chamada "Família com Deus pela Liberdade" mobilizou multidões poucos dias antes do golpe.
Não era exatamente o retrato de um povo contrário ao movimento.
Jango havia sido eleito vice-presidente pelo PTB na mesma eleição que levou à presidência Jânio da Silva Quadros, político do PTN apoiado pela UDN.
Jânio renunciou em 1961 — no próprio ano da posse —, e pela Constituição de 1946, vigente à época, o vice deveria substituí-lo automaticamente.
O problema: Jango estava em visita oficial à República Popular da China.
Pior timing impossível. Militares o acusaram de ser comunista e bloquearam sua posse.
Seguiu-se muita negociação, liderada principalmente por Leonel de Moura Brizola — cunhado de Jango e então Governador do Rio Grande do Sul.
O acordo foi político: o Brasil adotaria o parlamentarismo, com Jango como chefe de Estado, mas sem plenos poderes presidenciais.
Em 1963, um plebiscito mudou o cenário.
O povo votou pelo retorno ao presidencialismo — ou seja, Jango finalmente assumia a presidência com poderes plenos.
No governo de Jango, vieram à tona problemas estruturais acumulados nas décadas anteriores, além das disputas internacionais típicas do contexto da Guerra Fria.
A economia desordenada, o fracasso do "Plano Trienal" de estabilização e um discurso cada vez mais associado a medidas vistas como comunistas — reforma agrária, reforma urbana — foram alimentando a oposição.
No dia 13 de março de 1964, num comício em frente à Estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, diante de trezentas mil pessoas, Jango decretou a nacionalização das refinarias privadas de petróleo e a desapropriação, para fins de reforma agrária, de propriedades às margens de ferrovias, rodovias e zonas de irrigação de açudes públicos.
Inúmeras entidades anticomunistas foram criadas naquele período, associando Goulart e seu governo ao "perigo comunista" ou "perigo vermelho".
Esse discurso, até fins de 1963 restrito à extrema-direita, ganhou espaço rapidamente — e acabou unificando setores completamente distintos numa única frente.
O cimento da derrubada estava pronto.
A crise se aprofundou a partir de 25 de março, com a "rebelião dos marinheiros", amotinados no Sindicato dos Metalúrgicos da Guanabara reivindicando o reconhecimento de sua entidade representativa.
Os fuzileiros navais enviados para prendê-los acabaram aderindo à revolta.
A quebra da hierarquia na Marinha foi o argumento decisivo — deu ao golpe sua justificativa central: restaurar a ordem.
> "[...] A crise na Marinha mudou o foco do processo político.
Em vez de um enfrentamento entre projetos políticos, entre reforma e contra-reforma, uma luta entre os defensores da hierarquia e da disciplina nas Forças Armadas e os que desejavam subverter esses valores.
Um desastre político para Jango e para as forças reformistas, cujo dispositivo militar começou a ruir.
[...]"
Para a maior parte dos historiadores — e pela ausência de qualquer mobilização popular — o que houve em 1964 foi um golpe de estado.
Isso importa mais do que parece: chamar de revolução algo que não foi é uma forma de reescrever a história.
Até o ex-presidente Ernesto Geisel admitiu isso:
> "[...] O que houve em 1964 não foi uma revolução.
As revoluções fazem-se por uma ideia, em favor de uma doutrina. Nós simplesmente fizemos um movimento para derrubar João Goulart.
Foi um movimento contra, e não por alguma coisa. Era contra a subversão, contra a corrupção.
Em primeiro lugar, nem a subversão nem a corrupção acabam. Você pode reprimi-las, mas não as destruirá.
Era algo destinado a corrigir, não a construir algo novo, e isso não é revolução. [...]"
Para outros, foi uma contrarrevolução.
O coronel Jarbas Passarinho:
> "[...] O movimento militar de 1964 foi uma contrarrevolução, que só se efetivou, porém, quando a sedução esquerdista cometeu seu erro vital com a rebelião dos marinheiros, com a conivência do governo, o golpe de mão frustrado de sargentos em Brasília e a desastrosa fala de Jango para os sargentos no Automóvel Clube do Rio de Janeiro.
A disciplina e a hierarquia estavam gravemente abaladas. As Forças Armadas só então se decidiram pela ofensiva, reclamada pela opinião pública.
O apoio da sociedade brasileira, da imprensa, praticamente unânime, da maioria esmagadora dos parlamentares no Congresso, da Igreja, maciçamente mobilizada nas manifestações das enormes passeatas, as mulheres rezando o terço e reclamando liberdade, tudo desaguou na deposição de João Goulart, sem o disparo de um tiro sequer, o povo aclamando os militares.
[...]"
O golpe estabeleceu um regime autoritário e nacionalista, politicamente alinhado aos Estados Unidos — que temiam ver o Brasil se transformar numa ditadura socialista nos moldes de Cuba.
O regime durou até 1985, quando Tancredo Neves foi indiretamente eleito: o primeiro presidente civil desde 1964. Vinte e um anos.
Vale perguntar o que esse período deixou — e o quanto ainda carregamos dele.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: