Todo ano, milhares de famílias brasileiras vivem a mesma angústia: um filho desaparece e o Estado não sabe como ajudar.
Foi esse silêncio que Ivanise Esperidião da Silva e Vera Lúcia Gonçalves decidiram quebrar quando se conheceram em janeiro de 1996, durante as gravações de Explode Coração no Rio de Janeiro.
A novela da Glória Perez tinha levado para o horário nobre da TV Globo o drama de famílias com entes desaparecidos — e gerado uma campanha nacional que ajudou a localizar 113 pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos.
Mas Ivanise e Vera queriam algo permanente.
Nas gravações, as duas conheceram grupos que já atuavam nesse campo em outras regiões: as Mães da Cinelândia, no Rio de Janeiro, e o Movimento Nacional em Defesa das Crianças Desaparecidas, no Paraná.
O trabalho desses grupos foi o gatilho.
Por isso voltaram a São Paulo com um plano.
Em 31 de março de 1995, nasceu a ABCD — Associação Brasileira de Busca e Defesa da Criança Desaparecida, na cidade de São Paulo.
A entidade surgiu para enfrentar um problema que atinge milhares de famílias no Brasil, mas que a maioria das pessoas só conhece de perto quando é afetada diretamente: o desaparecimento de crianças.
Poucos meses depois de fundada, a associação já ganhava espaço na mídia e o apoio de empresas que, contagiadas pelo enredo da novela, passaram a apoiar a causa.
Todo segundo domingo do mês, um grupo de mães vai até a Praça da Sé com cartazes feitos à mão e fotos dos filhos desaparecidos.
Cada cartaz é uma família destruída. Cada foto, uma ausência que não fecha.
Elas vão na esperança de que alguém passando pela praça possa trazer alguma notícia — porque do Estado, essa notícia não veio.
Por que uma mãe precisa ir todo mês a uma praça pública com a foto do filho para que alguém se importe?
É um protesto silencioso diante da ineficiência do Estado.
Por conta desses encontros mensais, a entidade ficou conhecida como Mães da Sé — numa referência direta às Madres de Plaza de Mayo, na Argentina.
A associação atua com base no ECA — o Estatuto da Criança e do Adolescente —, com ações preventivas, parcerias com empresas e divulgação de fotos de desaparecidos.
Simples assim.
No início de 2000, estruturou uma coordenadoria jurídica e uma divisão de apoio psicológico, ampliando os serviços oferecidos aos associados.
Com o tempo, o foco foi além das crianças desaparecidas em São Paulo.
Hoje, a ABCD atende familiares e amigos de desaparecidos em todo o Brasil, independente da faixa etária.
Em pouco mais de 18 anos, foram cadastrados mais de 9.000 casos — quase uma cidade inteira de histórias interrompidas.
Cerca de 27% deles, ou seja, 2.937, foram solucionados. É pouco.
Mas é real.
O dia 31 de março é o Dia da Busca e da Defesa da Criança Desaparecida no Estado de São Paulo, instituído pela Lei Nº 12.495 de 26 de dezembro de 2006.
A data marca a fundação da ABCD e serviu de referência para iniciativas semelhantes em outros estados: a Semana de Mobilização Nacional para Busca e Defesa da Criança Desaparecida, em nível federal; a Semana Estadual de Mobilização para Busca e Defesa da Criança Desaparecida, no Mato Grosso; e a Semana da Criança Desaparecida, na Paraíba.
O objetivo é o mesmo desde o começo: tirar do silêncio um problema que o Brasil ainda não sabe resolver.
Se você conhece alguém que possa precisar da ABCD, não espere. Compartilhe.
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