Você sabia que no Ceará existe um dia dedicado ao repentista? Pois é — todo 5 de março se comemora o Dia do Repentista.
A data vem de uma lei estadual de 2011, a mesma que criou o "Dia Estadual do Poeta Cearense" e a "Semana Cultural Patativa do Assaré".
Uma homenagem a quem faz do improviso rimado uma forma de arte — cantado, falado ou escrito, criado na hora ou passado de geração em geração pela tradição popular.
Mas o 5 de março não foi escolhido à toa.
É o aniversário de Antônio Gonçalves da Silva — o Patativa do Assaré —, nascido em 1909 na cidade de Assaré, região do Cariri, interior do Ceará.
Agricultor, poeta popular, compositor, cantor, improvisador. Uma das figuras centrais da cultura nordestina do século XX.
E com razão.
Segundo filho de uma família pobre que vivia da agricultura de subsistência, Patativa perdeu a visão do olho direito ainda criança, por causa de uma doença.
Aos 8 anos, o pai morreu — e ele passou a ajudar no cultivo das terras da família.
Com 12 anos, frequentou a escola local por poucos meses.
O bastante para ser alfabetizado. Foi aí que começou a fazer repentes e a se apresentar em festas da região.
Por volta dos vinte anos, ganhou o apelido de Patativa. Por quê?
Diziam que sua poesia era tão bonita quanto o canto das patativas.
Patativa ia sempre à feira do Crato, onde participava de um programa na Rádio Araripe, declamando seus poemas.
Numa dessas idas, foi ouvido por José Arraes de Alencar — professor, jornalista, funcionário público e advogado — que viu potencial naquele poeta e bancou a publicação do primeiro livro: Inspiração Nordestina, em 1956.
O livro ganhou uma segunda edição com acréscimos em 1967, rebatizado de Cantos do Patativa.
A obra só cresceu a partir daí: Patativa do Assaré: novos poemas comentados (1970), Cante lá que eu canto cá (1978), Ispinho e Fulô (1988), Aqui tem coisa (1994).
Patativa foi casado com Belinha, com quem teve 9 filhos.
Conquistou popularidade nacional, diversas premiações, títulos e homenagens — incluindo 5 títulos de Doutor Honoris Causa. Sua marca forte?
A oralidade. Os versos eram feitos e guardados na memória, para depois serem recitados.
Mesmo depois dos noventa anos, era capaz de declamar qualquer um de seus poemas de cor.
Mas ele sempre afirmou que nunca buscou a fama.
Nunca teve intenção de fazer profissão dos seus versos.
E não era só conversa — provou na prática: nunca deixou de ser agricultor, nunca saiu da região onde nasceu e se criou.
Faleceu em 8 de julho de 2002, aos 93 anos.
A palavra, porém, continua viva.
E aí vem a questão: quando a obra de Patativa é transcrita para o papel, perde boa parte do que só existia na performance.
A voz, a entonação, as pausas, o ritmo, o pigarro, as expressões faciais, os gestos.
Ironia, veemência, hesitação — tudo isso aparecia no ato de declamar, não no texto impresso.
A complexidade da obra vai além.
Patativa criava versos tanto nos moldes camonianos, incluindo sonetos na forma clássica, quanto em rimas e métricas populares — a décima, a sextilha nordestina.
Ele próprio fazia questão de separar os versos em linguagem culta dos versos do dia a dia, que chamava de poesia "matuta".
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