Você já ouviu falar do Círculo de Oração? Todo 6 de março carrega um peso que pouca gente conhece fora do meio pentecostal.
E não é pouca coisa: a data é comemorada oficialmente como o Dia do Círculo de Oração no Maranhão, no Paraná e na cidade de São Paulo — cada um com sua própria lei estadual ou municipal.
Em Pernambuco, a celebração aparece como "Dia do Círculo de Orações".
Mas por que essa data?
Tudo começou em 6 de março de 1942, em Recife.
Albertina Bezerra Barreto, missionária da Assembleia de Deus, tinha uma filha chamada Zuleide — ou Ledinha.
A menina não andava, não falava, e os médicos foram diretos: ela não viveria além dos 8 anos.
Mas Albertina não aceitou o diagnóstico.
Durante um culto de domingo, sentiu-se tocada pelo Espírito Santo a convidar algumas irmãs para orar com ela na congregação do bairro de Casa Amarela.
Sete mulheres responderam ao chamado: Cecita Colaço, Malphara Bezerra, Maria do Carmo, Antonia Viegas, Ana de Souza, Otávia Pessoa e Maria José.
O primeiro encontro aconteceu na quinta-feira seguinte.
Ali nasceu o Círculo de Oração.
O nome veio de um folheto que Albertina havia lido, onde a oração era descrita como um círculo nos Céus.
"Enquanto orávamos, lembrei-me dessa mensagem e disse: vamos circular os céus com as nossas orações", declarou ela.
E Zuleide?
A menina que os médicos sentenciaram a viver só até os 8 anos se desenvolveu, andou e viveu 49 anos.
Quarenta e nove.
O que aconteceu depois surpreendeu até a própria Albertina.
O trabalho em Casa Amarela cresceu rápido — a cada semana, mais gente aparecia na congregação.
Albertina contava que, por muitas vezes, não conseguiam terminar o trabalho — tamanha era a alegria e a presença de Deus naquele lugar.
"As reuniões eram tão alegres que começávamos às 7 horas da manhã e terminávamos às 5 da tarde.
A gente não tinha vontade de sair de dentro da igreja."
O propósito inicial era buscar a cura de Zuleide.
Albertina não imaginava que aquela primeira reunião de oração se transformasse no que se tornou.
Ela relembrava o que o Senhor lhe falou naquele dia: "Era isso que eu queria que tu fizesses, era isso que exigia de ti.
Porque através de sua filha vou fazer uma grande obra.
É tão grande que não imaginas."
"O meu pensamento era que Jesus ia curar a menina e o trabalho terminaria ali, mas o Senhor orientou-nos, cumpriu suas promessas e abençoou nossas vidas", contou.
"E se Deus não tivesse abençoado, e se não fosse da sua vontade, o Círculo de Oração não existiria até hoje."
Depois de Casa Amarela, Albertina e seu esposo Florismundo Montenegro Barreto (falecido em fevereiro de 1995) seguiram para João Pessoa.
Lá, ela abriu o trabalho e durante 14 anos dirigiu o Círculo de Oração na capital paraibana.
Foi convidada também para iniciar os trabalhos em Belo Horizonte, Salvador e diversas igrejas no exterior.
"Agradeço a Deus por ter me escolhido para ser fundadora do Círculo de Oração.
Poderia ter sido qualquer outra pessoa, mas o trabalho é de Deus e Ele tem cumprido suas promessas na minha vida", declarou.
Em João Pessoa, logo no início, o pastor perguntou se as irmãs do Círculo de Oração poderiam ajudar no sustento de um pastor em Cajazeiras, no interior do estado.
O valor da ajuda seria de 50 mil réis, com a igreja cobrindo o restante. As irmãs se comprometeram a arcar com o valor total: 100 mil réis.
"Convocamos as irmãs para orar em favor dessa causa. Deus abençoou de maneira grandiosa e nunca mais faltou dinheiro", assegurou Albertina.
A oferta do Círculo de Oração do templo-central em Recife chegou a se equiparar à de Casa Amarela.
"Isso também é resultado de intercessão", afirmou.
Depois de 14 anos na Paraíba, Albertina voltou a Recife e reassumiu a frente do Círculo de Oração em Casa Amarela.
Essa segunda fase como dirigente durou quase 40 anos.
Todas as semanas, às quintas-feiras, ela continuou a conduzir o trabalho que reunia centenas de pessoas para interceder a Deus.
Mas qual era o segredo de tamanha disposição?
Para Albertina, a resposta era simples: buscar a Deus. "A oração é a principal.
O próprio Jesus, que teoricamente não precisaria orar, por ser o Filho de Deus e ter comunhão direta com o Pai, orava — e foi quem mais ensinou sobre a oração.
As pessoas precisam ter consciência da importância e da necessidade da oração."
Ao longo dos anos, muitos milagres aconteceram — entre eles, a cura de uma menina cega e paralítica de nascença e de duas mulheres: uma curada de tuberculose e outra que, sofrendo de um grave problema na coluna, já tinha passado por 19 cirurgias e estava desenganada pelos médicos.
"O Senhor disse que meus olhos iriam ver o resultado do trabalho: vou fazer o que tenho prometido, vou curar muitos, batizar muitos", relembrou Albertina.
Muitas das irmãs que começaram com ela já tinham partido. "Hoje, fico vendo as fotos e relembrando daquelas servas que o Senhor levou.
Daquele grupo que iniciou, só eu ainda estou aqui. Vejo o cumprimento da Palavra de Deus, da sua fidelidade.
Compreendo que Ele faz como quer e usa quem quer."
Albertina Barreto permaneceu ativa nos Círculos de Oração até sua morte, em 14 de agosto de 2008, aos 94 anos.
Foram mais de 80 anos de fé — convertida aos 13, ela deixou um legado que ultrapassou barreiras geográficas e denominacionais.
O trabalho que começou com sete mulheres orando pela cura de uma menina em Casa Amarela hoje acontece em praticamente todas as igrejas pentecostais do Brasil — além de países como Estados Unidos, Japão e Argentina.
O Círculo de Oração é considerado um dos ministérios mais importantes da Assembleia de Deus, adotado em todas as suas igrejas no país.
A chave?
Como Albertina sempre repetiu: está na oração. Sempre esteve.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: