23 de fevereiro.
Uma data, dois nomes, uma disputa de calendário que parece confusão — mas faz todo sentido quando você entende o que aconteceu.
O Estado de São Paulo comemora tanto o Dia da Cultura Coreana — instituído pela Lei Nº 13.516 de 29 de abril de 2009 — quanto o Dia da Imigração Coreana, os dois fixados na mesma data.
O motivo é histórico: foi em 23 de fevereiro de 1963 que os primeiros 107 imigrantes coreanos desembarcaram no porto de Santos, e esse episódio virou o marco oficial da presença coreana no Brasil.
Mas a história não fecha tão limpa assim.
O Projeto de Lei Nº 385, apresentado em 28 de junho de 2001 pela Câmara Municipal de São Paulo, aponta outra data: 12 de fevereiro desse mesmo ano, quando as primeiras 17 famílias teriam chegado pelo Porto de Santos.
Por isso a capital paulista celebra o Dia da Imigração Coreana no dia 12 — e não no dia 23.
Dois marcos, uma história.
Antes de 1963, já havia coreanos no Brasil.
Pequenos grupos de ex-prisioneiros da Guerra da Coreia, que aconteceu no início dos anos 1950, chegaram primeiro na condição de colonos agrícolas.
Chegaram cheios de esperança, em busca de uma vida nova — e alguns foram parar em Recife, onde encontraram no comércio de pesca o primeiro ponto de apoio.
Na bagagem, trouxeram tudo o que tinham: costumes, comidas, religiões, o jeito de se vestir.
Incluindo os Hanboks — as roupas tradicionais, muito coloridas, usadas nas ocasiões especiais dessa cultura.
O grande fluxo migratório aconteceu entre 1963 e 1974.
A maioria foi direto para as cidades.
Só uma parcela pequena tentou o campo — e esbarrou em dois problemas sérios: falta de infraestrutura para se dedicar à agricultura e a presença de posseiros ilegais, que impediam os imigrantes de se fixar na terra.
Ou seja, a cidade não foi uma escolha aleatória. Foi a saída possível.
E as dificuldades não pararam por aí.
Chegar num país onde você não entende uma palavra, onde seus costumes parecem exóticos e onde a burocracia não foi feita para você — isso cria barreiras reais.
Idioma completamente distinto, cultura diferente, costumes que não se traduzem.
Porém, os coreanos atravessaram esses obstáculos e construíram uma presença sólida, integrando sua cultura milenar às tradições brasileiras.
A comunidade coreana no Brasil está concentrada principalmente em São Paulo e na região do ABCD, mas também em Santos, Campinas, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Na capital paulista, o caminho foi gradual:
Nos anos 1990, o Brás ficou com o comércio atacadista e os produtos mais baratos.
As lojas de confecção feminina mais sofisticada se mudaram para o Bom Retiro — que hoje tem perfil predominantemente coreano, passou por uma reestruturação completa e ganhou destaque com o Parque da Luz.
Cerca de 30% da produção de roupas femininas no país sai de empresas de coreanos.
Um número que fala por si.
Além disso, a comunidade atua em comércio varejista, indústria e comércio de eletroeletrônicos, profissões liberais e funcionalismo público.
Mas o dinheiro é só parte da história.
A integração vai além do econômico.
Diversas associações coreanas — de cunho religioso, cultural, esportivo, comercial e representativo — trabalham ativamente no Brasil.
O Projeto de Lei Nº 709, de 6 de dezembro de 2012, destaca as principais: ABC (Associação Brasileira dos Coreanos), ABUC (Associação Brasileira dos Universitários Coreanos no Brasil), ABEC (Associação Brasileira de Educação Coreana), Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Coreia e ABDC (Associação Brasileira dos Desportistas Coreanos).
Mais de seis décadas depois do primeiro desembarque em Santos, a herança coreana não é só econômica — é cultural, social e permanente.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: