Dia 22 de março. A data existe desde 1993, quando a Assembleia Geral da ONU criou o Dia Mundial da Água por meio da Resolução A/RES/47/193.
A motivação veio direto da ECO-92 — a conferência sobre meio ambiente realizada no Rio de Janeiro — e das recomendações presentes no capítulo 18 do Programa 21 (a famosa Agenda 21).
A ideia é simples: cada Estado-Membro da ONU deve usar esse dia para ações concretas — conscientização pública, reportagens, conferências, seminários, exposições.
Tudo voltado ao uso racional dos recursos hídricos.
Mas será que, na prática, essas ações estão funcionando?
Mas o que exatamente estamos comemorando — e protegendo?
H2O.
Dois átomos de hidrogênio, um de oxigênio. Parece simples, não?
Mas essa substância — abundante no Universo inteiro — cobre boa parte da superfície da Terra e compõe a maior fração dos fluidos de todo ser vivo.
As temperaturas do nosso planeta permitem algo raro: a água existe nos três estados físicos ao mesmo tempo.
Líquida nos oceanos, rios e lagos — que cobrem quase três quartos da superfície terrestre. Sólida nas regiões polares, como massas de gelo.
E gasosa, como vapor na atmosfera.
Em pequenas quantidades, parece incolor. Em grandes volumes, revela um tom azulado.
Um detalhe sutil — mas que diz muito sobre como a percebemos.
A água tem características que a tornam única.
Dilatação anômala, alto calor específico, capacidade de dissolver uma quantidade enorme de substâncias — com exceção de graxas e óleos, que não se misturam com ela.
Por que isso importa?
Porque foram exatamente essas propriedades que favoreceram o surgimento da vida nos oceanos primitivos — e permitiram que ela evoluísse até chegar aqui.
Ou seja: sem essas características, nós simplesmente não existiríamos.
Praticamente todos os seres vivos da Terra dependem de água para sobreviver.
Os oceanos cobrem a maior parte do planeta, mas a água salgada não serve para consumo humano.
Só uma fração pequena da água disponível nos continentes — a água doce, com poucos sais dissolvidos — pode ser consumida diretamente.
O problema: essa distribuição não é uniforme.
Diversas regiões do mundo sofrem com escassez hídrica.
As atividades humanas, principalmente a agricultura, retiram grandes volumes de água de seus leitos naturais, afetando a distribuição tanto na superfície quanto nos reservatórios subterrâneos.
A poluição compromete a qualidade, prejudica a biodiversidade e afeta o abastecimento e a produção de alimentos.
Além disso, uma parcela considerável da população mundial ainda não tem acesso a água potável — o que gera problemas sérios de saúde.
A água está ligada ao modo de vida e à cultura de todos os povos — não existe civilização sem ela.
Por isso, diante do desperdício e do mau uso dos recursos hídricos, cresce a consciência de que precisamos mudar a forma como lidamos com esse recurso.
E isso começa por cada um de nós.
Vamos voltar ao começo — ao começo de tudo.
Os primeiros átomos de hidrogênio se formaram logo após o Big Bang e se espalharam pelo Universo primordial.
Milhões de anos depois, nuvens desse elemento colapsaram gravitacionalmente.
Conforme agregavam massa, o núcleo ficava mais quente e mais pressurizado, até que os átomos se fundiram — liberando energia enorme e dando origem às primeiras estrelas.
A fusão nuclear em estrelas cada vez maiores criou núcleos atômicos mais pesados.
Entre eles, o oxigênio.
Quando essas estrelas morriam, ejetavam esses novos elementos no espaço.
Ou seja: a água é comum no meio interestelar.
Hidrogênio e oxigênio estão entre os elementos mais abundantes do Universo.
A formação da molécula de água, porém, depende de grãos de poeira cósmica que facilitam a ligação entre os átomos.
Na Terra, os oceanos formam uma massa gigantesca de água líquida — 71% da superfície do planeta, com espessura média de 3,7 quilômetros.
Pacífico, Atlântico, Índico e Ártico são tratados muitas vezes como um único oceano global, já que estão todos conectados.
Esses oceanos se dividem em duas camadas bem diferentes.
A superficial tem apenas cem metros de espessura, recebe luz solar — é viva, agitada.
Já as águas profundas são outro mundo: frio e escuridão constantes, com temperatura praticamente uniforme.
Menos de 3% da água da Terra está fora dos oceanos, e geralmente tem concentrações bem menores de sais — a chamada água doce.
A maior parte dela, porém, está presa em geleiras continentais e calotas polares.
Groenlândia e Antártida juntas contêm mais de 99% de todo o gelo do planeta.
Só 0,65% da água terrestre está nos continentes — em rios, lagos e reservatórios subterrâneos.
Leia de novo: 0,65%.
É quase nada.
Pequenos cursos d'água nascem em altitudes elevadas, fluem para regiões mais baixas, ganham volume ao se juntar com afluentes e formam rios — que, na maioria das vezes, seguem até desaguar no oceano.
Nesse trajeto, a água carrega sedimentos, matéria orgânica e sais dissolvidos.
Lagos cobrem 1,8% da área dos continentes e nem sempre são de água doce.
Lagos artificiais surgem do represamento de rios, principalmente para geração de energia elétrica.
Boa parte da água também está sob o solo, na forma subterrânea.
A água circula entre a atmosfera e a litosfera num ciclo contínuo.
A radiação solar sobre os oceanos fornece energia para a evaporação — a água passa a integrar a atmosfera e circular com os ventos dominantes.
Quando atinge camadas mais frias, o vapor se condensa e forma nuvens: aglomerações de gotículas de água líquida ou gelo.
O vento transporta essas nuvens para outras regiões, onde a precipitação acontece como chuva, granizo ou neve.
Essa precipitação pode cair sobre geleiras (e ser incorporada às massas de gelo), sobre os oceanos ou sobre os continentes.
Neste último caso, a água escoa pela superfície, abastecendo rios e lagos, ou se infiltra no solo, formando águas subterrâneas que eventualmente emergem em pontos de descarga de aquíferos.
Os fluxos de água líquida normalmente seguem em direção ao oceano.
Mas parte da água nos continentes sofre evapotranspiração — evaporação direta do solo, de rios e lagos, somada à transpiração das plantas — e retorna à atmosfera.
Mais de três quartos da precipitação global acontece sobre o oceano.
A quantidade evaporada ali é ainda maior, e é esse excedente que permite distribuir parte da água sobre os continentes.
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