Todo ano, em 22 de março, o mundo para — pelo menos deveria — para falar sobre água. Eu poderia começar com números.
Mas prefiro começar com uma imagem: abre a torneira, sai água. Parece simples. Não é.
No Brasil, a data tem peso extra: além do Dia Mundial da Água, existe o Dia Nacional da Água, e a cidade de Águas de Santa Bárbara-SP celebra seu próprio Dia da Festa da Água Mineral, criado pela Lei Nº 10.755 de 23 de janeiro de 2001 do Estado de São Paulo.
A origem de tudo isso remonta à ECO-92, realizada no Rio de Janeiro em 1992.
Daquela conferência saiu a Agenda 21 — um dos documentos mais importantes já produzidos sobre sustentabilidade.
E foi dela que nasceu a ideia de dedicar um dia inteiro à água. Simples assim.
A ONU transformou isso em resolução e passou a convidar os Estados-Membros a dedicar 22 de março a atividades concretas: campanhas de conscientização, conferências, mesas redondas, seminários, publicações e debates sobre o aproveitamento dos recursos hídricos e a aplicação das recomendações do Programa 21.
Água é H₂O.
Dois átomos de hidrogênio, um de oxigênio.
Simples na fórmula, extraordinária na prática.
É abundante no Universo e cobre grande parte da superfície da Terra.
Em pequenas quantidades parece incolor; em grandes volumes, revela uma coloração levemente azulada.
Ocorre nos três estados físicos — líquido, sólido e gasoso — e isso depende diretamente das temperaturas do planeta.
Praticamente todos os seres vivos da Terra dependem dela para sobreviver.
Mas o que torna a água tão peculiar?
São suas propriedades físico-químicas: dilatação anômala, alto calor específico e capacidade de dissolver uma enorme quantidade de substâncias.
Graxas e óleos são a exceção — esses não se dissolvem em água.
Essas características foram decisivas para o surgimento da vida nos oceanos primitivos da Terra — ou seja, sem elas, nada do que existe hoje existiria.
Os primeiros átomos de hidrogênio — o elemento mais simples — surgiram logo após o Big Bang e se espalharam pelo Universo primordial.
Milhões de anos depois, nuvens desse elemento colapsaram gravitacionalmente.
O núcleo foi aquecendo, a pressão aumentando, até que os núcleos atômicos se fundiram e liberaram grande quantidade de energia.
Nasceram as primeiras estrelas.
A fusão nuclear em estrelas cada vez maiores criou elementos cada vez mais pesados — entre eles, o oxigênio.
Ao fim de sua existência, cada estrela ejeta esses novos elementos no espaço.
Por isso a água é encontrada no meio interestelar: ambos os seus constituintes estão entre os elementos mais abundantes do Universo.
Na Terra, grãos de poeira facilitam a ligação entre hidrogênio e oxigênio, formando moléculas de água.
Os oceanos cobrem 71% da superfície terrestre com espessura média de 3,7 quilômetros.
Pacífico, Atlântico, Índico e Ártico são suas divisões convencionais — mas estão todos conectados, formando na prática um único oceano global.
A camada superficial, com cerca de cem metros de profundidade, é onde a luz solar penetra e onde a vida marinha ferve em dinamismo.
Abaixo disso: frio constante, escuridão e temperatura praticamente uniforme.
Mas oceanos não servem para beber.
A salinidade da água marinha inviabiliza o consumo humano. Ponto.
Menos de 3% da água da Terra está fora dos oceanos — e a maior parte dessa parcela está presa nas geleiras continentais e nas calotas polares, com destaque para a Groenlândia e a Antártida, que juntas concentram mais de 99% de todo o volume de gelo do planeta.
O que sobra para uso direto é muito pouco.
Apenas 0,65% da água da Terra está sobre os continentes, em rios, lagos e água subterrânea — e sua distribuição é profundamente desigual, o que faz com que diversas regiões do mundo sofram com escassez hídrica.
Pequenos cursos d'água geralmente surgem em altitudes elevadas e fluem para regiões mais baixas.
Pelo caminho, ganham volume ao receber afluentes e formam rios que, na maioria das vezes, seguem até desaguar no oceano.
Ao percorrer esse trajeto, a água carrega sedimentos, matéria orgânica e sais dissolvidos — tudo vai parar no mar.
Lagos são grandes retenções de água que cobrem 1,8% da área dos continentes e não necessariamente são formados por água doce.
Os lagos artificiais, criados pelo represamento de rios, têm diversas finalidades — principalmente a geração de energia elétrica.
Boa parte da água da Terra está ainda sob o solo, na forma de água subterrânea, que normalmente emerge à superfície em pontos de descarga de aquíferos.
O sol aquece os oceanos e provoca a evaporação.
Esse vapor sobe, circula pelos ventos, resfria nas camadas mais altas da atmosfera e forma nuvens — aglomerações de gotículas de água líquida ou de gelo.
O vento transporta essas nuvens para outras regiões, onde, sob certas condições, ocorre a precipitação: chuva, granizo ou neve.
Essa precipitação pode cair sobre geleiras, sobre os oceanos ou sobre os continentes.
Nos continentes, a água escoa pelo solo, abastecendo rios e lagos, ou se infiltra nas camadas inferiores do terreno, formando os aquíferos subterrâneos.
Parte da água continental ainda passa pelo processo de evapotranspiração — evaporação direta do solo, de rios e lagos, combinada com a transpiração das plantas.
Assim ela volta à atmosfera e o ciclo recomeça.
Mais de três quartos de toda precipitação do planeta ocorre sobre o oceano.
A atividade humana retira volumes enormes de água do seu leito natural — e a agricultura lidera esse consumo.
Isso afeta diretamente a distribuição da água doce sobre os continentes e também na forma de água subterrânea.
A poluição hídrica compromete a qualidade da água, destrói a biodiversidade, dificulta o abastecimento e prejudica a produção de alimentos.
Por isso, uma parcela considerável da população mundial ainda não tem acesso à água potável, o que provoca sérios problemas de saúde.
A água está na raiz de tudo: das culturas, das cidades, das colheitas, da vida.
Por isso, quando ela falta, não é só a torneira que seca — é o tecido inteiro da sociedade que começa a se desfazer.
O Dia Mundial da Água existe para isso. Mas lembrar não basta.
Se você quer fazer parte da solução, começa simples: um banho mais curto, uma torneira fechada, um desperdício evitado. O problema é real.
As ações começam em você.
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