Se você trabalha com rádio — ou simplesmente cresceu ouvindo —, provavelmente já viu essa data marcada no calendário.
Mas qual das duas?
O 21 de setembro de 1945 foi quando o governo brasileiro assinou o decreto-lei nº 7.984, regulamentando pela primeira vez as funções exclusivas dos trabalhadores em empresas de radiodifusão e fixando o piso salarial da categoria.
Foi esse decreto que deu origem ao Dia do Radialista comemorado em 21 de setembro em vários estados do país.
Mas você sabia que o Brasil tem dois "Dias do Radialista"?
A disputa entre as datas revela mais do que uma questão de calendário — revela como a categoria enxerga a própria história.
O nacional, celebrado em 7 de novembro, homenageia o nascimento de Ary Barroso — compositor, músico popular e radialista que veio ao mundo em 7 de novembro de 1903.
Por isso existe um Projeto de Lei (nº 6.373, de 18 de setembro de 2013, em tramitação na Câmara) que quer mover a data nacional para 21 de setembro.
O 21 de setembro conta com o apoio da FITERT — Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão —, e é nessa data que os sindicatos filiados costumam realizar atividades comemorativas pelo país.
Tem lei estadual que a oficializa em Santa Catarina (Lei Nº 12.845/2003) e resolução da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Resolução Nº 427/2004).
São Paulo foi o pioneiro — de lá saiu a primeira versão, como "Dia Estadual do Radialista".
Depois vieram Espírito Santo e Maranhão, com o "Dia Estadual do Ouvinte de Rádio".
O 7 de novembro, por sua vez, tem respaldo em nível nacional, lei estadual no Mato Grosso e ainda o "Dia Estadual do Ouvinte de Rádio" no Ceará e na Paraíba.
Para os defensores do 21 de setembro, a data não é arbitrária.
O argumento central é simples: o decreto de 1945 é a pedra fundamental sobre a qual se construíram todas as lutas dos radialistas brasileiros — a regulamentação profissional, o reconhecimento das tarefas do cotidiano, a constituição do projeto ético-político-profissional da categoria.
Abrir mão disso seria abandonar a própria história.
Ary Evangelista de Resende Barroso nasceu em Ubá, Minas Gerais, em 7 de novembro de 1903 — e desde cedo ficou claro que aquele menino tinha algo diferente.
Aos 12 anos já tocava piano no Cinema Ideal da cidade. Aos 15, escreveu a primeira composição, um cateretê chamado "De longe".
Em 1921, com a herança recebida após o falecimento do tio (o ex-ministro da Fazenda Sabino Barroso), mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar Direito — e ficou por lá durante mais de 40 anos, até morrer em 9 de fevereiro de 1964.
A relação de Ary com o rádio ganhou forma em 1943, quando assumiu o programa "A Hora do Calouro" na Rádio Nacional.
Líder de audiência por anos, o programa revelou nomes como Dolores Duran, Elza Soares e Luiz Gonzaga. Não é pouca coisa.
Além de apresentador, Ary também atuou como locutor esportivo.
Na década de 1930, quando a Era do Rádio ganhou força no Brasil, Ary Barroso começou a compor para o teatro musicado carioca.
Em 1939 criou "Aquarela do Brasil" — gravada primeiro por Francisco Alves, regravada depois por grandes nomes da MPB, e eleita em 1997 pela Academia Brasileira de Letras como a canção brasileira mais importante do século.
Além disso, Ary assinou a trilha sonora de "Você já foi à Bahia?" — o "The Three Caballeros" (1944) dos estúdios Walt Disney —, que concorreu ao Oscar e recebeu um diploma de mérito da Academy of Motion Picture Arts and Sciences, em Hollywood.
Mas seu cancioneiro vai muito além de "Aquarela do Brasil": inclui músicas como "No Tabuleiro da Baiana", "Na Baixa do Sapateiro", "No Rancho Fundo", "Sandália de Prata" e "Risque", entre centenas de outras composições que ficaram para sempre na memória musical do país.
Então, 21 de setembro ou 7 de novembro?
Talvez a resposta não esteja na data em si — mas no que cada uma representa.
Uma ancora a profissão na lei; a outra, no talento que deu rosto ao rádio brasileiro.
O que vale é não deixar nenhuma das duas histórias cair no esquecimento.
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