Você sabia que o primeiro culto protestante das Américas aconteceu no Brasil? Foi em 10 de março de 1557.
Uma pequena sala numa ilha na baía de Guanabara.
Um grupo de franceses e suíços cantou um salmo em uníssono, ouviu um sermão, orou — e sem saber, entrou para a história.
Essa data é comemorada pela Igreja Presbiteriana do Brasil e foi oficializada como "Dia do Missionário Evangélico" no Estado de Pernambuco e como "Dia Estadual da Consciência Evangélica" no Estado do Rio de Janeiro.
Depois da descoberta, o Brasil não era prioridade para Portugal.
Esse desinteresse abriu espaço para outras nações europeias — especialmente a França.
Por isso, só depois do fracasso das capitanias hereditárias e das constantes incursões estrangeiras é que Portugal enviou, em 1549, o primeiro governador-geral, Tomé de Souza, que se instalou na atual Salvador.
Mesmo assim, o controle da imensa costa brasileira continuava precário.
Foi nesse vácuo que o militar francês Nicolas Durand de Villegaignon enxergou uma oportunidade.
Depois de uma viagem secreta de pesquisas à região de Cabo Frio em 1554, aproximou-se do vice-almirante Gaspard de Coligny — um dos principais conselheiros do rei da França, simpatizante da Reforma — e conseguiu dois navios e o apoio do rei Henrique II para fundar uma colônia na baía de Guanabara.
Para preencher a expedição, faltavam voluntários.
Villegaignon chegou a percorrer as prisões do norte da França prometendo liberdade a quem embarcasse. Era isso ou ficar preso.
A expedição chegou em 10 de novembro de 1555 e foi bem recebida pelos índios tupinambás, já acostumados à presença francesa na região.
O grupo se instalou na ilha de Serigipe — mais tarde chamada de Villegaignon — e em cerca de três meses construiu, com o auxílio dos indígenas, o Forte Coligny, com cinco baterias voltadas para o mar.
Com o tempo, os indígenas que ajudavam nas obras foram perdendo a paciência. Recebiam presentes, mas o trabalho pesado ficava todo para eles.
Ou seja: uma parceria que nunca foi de verdade.
Diante das dificuldades crescentes, Villegaignon escreveu à Igreja Reformada de Genebra pedindo pastores e colonos evangélicos que pudessem contribuir para a estabilidade moral e espiritual da colônia.
João Calvino respondeu.
Com o objetivo de implantar a fé reformada entre os franceses e evangelizar os indígenas, ele e seus colegas escolheram dois pastores suíços: Pierre Richier, um homem de seus 50 anos, e Guillaume Chartier, jovem de 30 ainda em formação teológica.
Junto com eles partiram de Genebra, em 16 de setembro de 1556, mais doze pessoas — entre eles Pierre Bourdon, Matthieu Verneil, Jean du Bourdel, André Lafon, Nicolas Denis, Jean Gardien, Martin David, Nicolas Raviquet, Nicolas Carmeau, Jacques Rousseau, e o sapateiro radicado na Suíça Jean de Léry, que se tornaria o cronista da expedição e autor de Viagem à Terra do Brasil (publicada em 1578).
Ao todo, 14 pessoas.
Depois de visitar Coligny e passar por Paris — onde outros se juntaram à comitiva, possivelmente incluindo o ministro calvinista Jacques Le Balleur —, o grupo embarcou em 19 de novembro pelo porto de Honfleur, na Normandia.
A frota de três navios, comandada pelo sobrinho de Villegaignon, Bois Le Conte, levava cerca de 290 pessoas, inclusive algumas mulheres — entre elas cinco moças que viriam para se casar no Brasil.
A viagem foi penosa — e isso é pouco dizer.
Sem conseguir provisões nas Ilhas Canárias, chegaram a assaltar navios portugueses e espanhóis para obter água e comida.
A bordo, reinava a indisciplina. Eram missionários. Mas chegaram como piratas.
Em determinado momento, os reformados recitaram o Salmo 107, versículos 23 a 30.
No dia 7 de março de 1557, a frota finalmente entrou na baía de Guanabara.
Em 10 de março, após o desembarque no Forte Coligny, Villegaignon recebeu o grupo com alegria — eles vinham estabelecer uma igreja reformada na nova terra.
Logo em seguida, todos se reuniram numa pequena sala no centro da ilha.
O pastor Richier orou. O grupo cantou em uníssono, ao estilo de Genebra, o Salmo 5: "Dá ouvidos, Senhor, às minhas palavras".
O hino faz parte do Saltério Huguenote — metrificação do poeta Clément Marot, melodia de Louis Bourgeois.
Um dos grandes mestres da música francesa do século 16.
A versão mais conhecida em português, "À minha voz, ó Deus, atende", tem música de Claude Goudimel (1572) e metrificação do pastor congregacional brasileiro Reverendo Manoel da Silveira Porto Filho.
Richier pregou com base no Salmo 27:4: "Uma coisa peço ao Senhor e a buscarei: que eu possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo".
Depois do culto, a primeira refeição brasileira: farinha de mandioca, peixe moqueado e raízes assadas no borralho — as cinzas quentes que ficam no fogão de lenha depois que o fogo se apaga.
Dormiram em redes, à maneira indígena.
A Santa Ceia, segundo o rito reformado, foi celebrada pela primeira vez no domingo, 21 de março de 1557.
A boa convivência não durou.
Instigado pelo ex-frade dominicano Jean de Cointac, Villegaignon passou a perseguir os colonos huguenotes por razões teológicas.
Com a passagem do navio Les Jacques, que seguiria para a França, os colonos expulsos resolveram voltar para seu país.
Villegaignon não se opôs ao embarque — mas enviou instruções secretas para serem entregues ao primeiro juiz em solo francês, mandando que "se executassem os huguenotes como traidores e hereges".
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