Em São Paulo, 10 de março é o Dia da Mulher Taxista.
Você provavelmente não sabia disso — e tudo bem, porque nem os registros oficiais deixam muito claro o porquê.
Depois de muita pesquisa, incluindo a leitura completa do Projeto de Lei Nº 45 da Câmara de Vereadores de São Paulo, os motivos específicos para a escolha dessa data ainda não ficaram de todo claros.
O que fica claro é que o Decreto Nº 56.485, de 8 de outubro de 2015, que criou a categoria de Táxi Preto na capital paulista, também reservou 1.250 autorizações e alvarás para mulheres taxistas — mulheres que, além de cuidar do lar e dos filhos, ainda arranjam tempo para se dedicar ao transporte oficial de passageiros.
Russey era mecânica especializada.
Antes do táxi, trabalhava consertando automóveis e conseguia reparar carros melhor do que a maioria dos homens da época.
Elegante, profissional, completamente independente — numa época em que as mulheres sequer podiam votar. Pense nisso.
Ela poderia se dar ao luxo de não depender única e exclusivamente do táxi, mas escolheu a profissão — e abriu uma estrada, no sentido literal e figurado, para outras mulheres entrarem na indústria do transporte de passageiros ao redor do mundo.
Depois de Russey, taxistas femininas viraram algo corriqueiro.
No Brasil não é diferente — mas o caminho até aqui não foi exatamente simples.
Influenciadas por maridos ou pais, atraídas pela flexibilidade de horário e pela possibilidade de uma renda razoável, mulheres foram chegando à profissão aos poucos.
A Adetax — Associação das Empresas de Táxis de Frota do Município de São Paulo — registra demanda constante de mulheres interessadas em trabalhar como taxistas.
Dos 3.800 táxis das empresas da capital paulista, mais de 5% já são dirigidos por mulheres, o que representa mais de 200 taxistas femininas só nesse segmento.
São Paulo tem aproximadamente 34 mil táxis no total, e o então presidente da Adetax, Ricardo Auriemma, avalia que essa proporção provavelmente se repete na categoria como um todo — colocando a estimativa em mais de 1.700 mulheres trabalhando no transporte oficial de passageiros na cidade.
Segundo a Adetax, são três os principais motivos que levam mulheres à profissão: influência de marido ou pai, flexibilidade de horário e possibilidade de boa renda financeira.
Ou seja: os mesmos motivos que levam qualquer pessoa a escolher qualquer trabalho.
Ivone Pereira dos Santos, 50 anos, começou em 2011.
Ela já tinha o Condutax — o cadastro pessoal e intransferível que habilita o cidadão a exercer a atividade de taxista na capital paulista — e tinha no ex-marido uma referência direta na profissão.
"Posso definir meus horários e conciliar o trabalho com minhas outras obrigações", disse ela.
Para Auriemma, mais mulheres na profissão é algo positivo — e ele não está sendo condescendente ao dizer isso.
"O bom profissional independe do gênero.
E as mulheres são, muitas vezes, até mais cuidadosas no trânsito." Ele acrescenta que a profissão de taxista, como qualquer outra, exige disposição e paciência para construir e ampliar a clientela — até chegar ao ponto em que a sorte importa cada vez menos e a rede formada ao longo do tempo faz o trabalho.
Listas informais de taxistas mulheres, feitas principalmente por coletivos feministas e circulando pelo Facebook e WhatsApp, já são populares no Brasil.
No mundo, aplicativos no estilo Uber, mas exclusivamente com condutoras femininas, também ganham espaço.
O SheTaxi surgiu em 2014 nos Estados Unidos.
Em Nova Delhi, capital da Índia, existe um serviço que as passageiras chamam de "táxis para Mulheres por Mulheres" — dedicado ao transporte seguro de mulheres em uma cidade com histórico de violência.
No Rio de Janeiro, o Táxi Rosa foi criado em 2016 com proposta parecida: um adesivo rosa circular na traseira do carro identifica o veículo, e as passageiras podem escolher uma motorista mulher em prol da segurança de ambas.
Na capital paulista, o FemiTaxi — com apoio do SIMTETAXIS-SP, Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores nas Empresas de Táxi no Estado de São Paulo — funciona por aplicativo para iOS e Android, conta somente com mulheres taxistas e não aceita motoristas particulares.
O serviço nasceu a partir de denúncias de assédio e violência contra usuárias, mas também com base em dados concretos.
Uma pesquisa da 99 Taxi, feita por e-mail com 1,8 milhão de usuários da plataforma, constatou que 56,5% das usuárias gostariam de ter a opção de ser conduzidas por taxistas mulheres, enquanto 23% achavam importante que o motorista não tivesse acesso aos seus dados e 20,8% preferiam poder compartilhar o trajeto com um amigo.
Outra pesquisa da 99 Taxi, com 16 mil entrevistadas, mostrou que 58% queriam a opção de motorista feminina.
O medo do assédio, a maior afinidade e o desejo de incentivar outras mulheres no mercado de trabalho estão entre os principais motivos.
Em Recife, o público feminino desse tipo de serviço chega a 50% — acima da média brasileira, que fica em 45%. Os números falam por si.
Por isso, a pergunta não é mais se há espaço para mulheres taxistas no Brasil. A pergunta é por que demorou tanto.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: