Chamavam-no de "padre protestante" muito antes de ele se tornar um.
O apelido já o seguia pelas paróquias de São Paulo quando ainda usava batina e celebrava missa.
Todo ano, em 11 de março, presbiterianos brasileiros celebram o Dia da Educação Cristã em homenagem a José Manuel da Conceição.
Pesquisei bastante e não encontrei suporte oficial para a data.
Mas ela existe — e isso já diz muito sobre quem foi esse homem.
Entre 1844 e 1845, Conceição foi ordenado diácono e depois presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana.
Passou por Limeira-SP, e ali começou o problema: pregava mensagens evangélicas e incentivava o povo a ler a Bíblia.
O bispo católico Dom Manoel Joaquim Gonçalves de Andrade não aceitou.
A solução foi transferi-lo de paróquia em paróquia — Piracicaba-SP, Monte-Mór-SP, Limeira outra vez, Taubaté-SP, Ubatuba-SP, Santa Bárbara d'Oeste-SP, e por fim Brotas, onde chegou em 1860.
O apelido já o acompanhava: "padre protestante".
Foi em Brotas que os primeiros missionários do presbiterianismo no Brasil encontraram Conceição.
E bastou isso: a influência deles foi suficiente para converter o padre que já pregava como protestante há anos.
Em 17 de dezembro de 1865, ele foi ordenado pastor evangélico — data que os presbiterianos brasileiros celebram até hoje como o "Dia do Pastor Presbiteriano".
Pouco depois da ordenação, as viagens evangelísticas começaram.
Itapeva-SP no sul, Brotas-SP no oeste de São Paulo, Campanha-MG no sul de Minas, Barra do Piraí-SP no Vale do Paraíba.
Conceição visitou as cidades onde havia sido pároco e muitas outras comunidades, plantando as sementes do que seriam futuras igrejas evangélicas.
Não teve uma igreja fixa.
Dedicou-se inteiramente ao trabalho de evangelista itinerante no interior da então província de São Paulo.
Para ele, a mensagem cristã ia além da salvação individual — como ele mesmo escreveu, ela atuava para o "bem-estar do seu país e a moralização da sociedade, cuja felicidade somente o Evangelho pode garantir" (Leith, p.
217).
A Igreja Católica Apostólica Romana respondeu.
A "Sentença de Excomunhão e Exautoração" contra o ex-padre foi publicada no jornal Correio Paulistano de 23 de abril de 1867.
No mês seguinte, Conceição publicou a resposta nos jornais — um manifesto evangélico em forma de libelo público.
Em junho desse mesmo ano, reuniu os dois documentos num livreto de grande circulação.
As viagens cobram seu preço, e Conceição pagou caro.
Foi perseguido, agredido fisicamente, desgastado. Em agosto de 1873, o presbitério tomou uma decisão: ele precisava tratar a saúde.
Anos de peregrinação haviam deixado marca.
Por isso o enviaram ao Rio de Janeiro.
Morreu na madrugada de 25 de dezembro de 1873, enquanto dormia, quase na condição de indigente, depois de uma viagem extenuante até a capital.
Além dos filhos espirituais — cujos descendentes atuam até hoje na Igreja Presbiteriana do Brasil — Conceição colaborou com a Imprensa Evangélica com artigos e sermões.
Alguns foram republicados num suplemento do Brasil Presbiteriano em 1972, no sesquicentenário do seu nascimento: "A devoção doméstica", "A ilustração", "O evangelho", "O endurecimento do coração" e "A última ceia do Senhor".
Escreveu também hinos — "Amar-te, Jesus, e crer-te", "Oh!
Se me fora possível", "Dou de mão à vaidade" e "Escreve tu com própria mão" — além do texto "As exéquias de Abraão Lincoln, presidente dos Estados Unidos da América" (1865) e algumas cartas.
Dominava matemáticas e ciências físicas e naturais.
Conhecia francês, inglês, latim e alemão.
Um homem culto, que escolheu morrer a caminho.
Se você ainda não conhecia essa história, já passou da hora.
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