Você já parou pra pensar no trabalho que dá levar datas comemorativas a sério?
Pesquisar de verdade, ir atrás de fontes, checar informação — é coisa pra quem tem paciência e curiosidade de sobra.
Pois bem.
Numa dessas pesquisas sobre comemorações, apareceu o tal Dia Nacional do Baobá.
A fonte que divulgava essa efeméride citava um Decreto Federal Nº 5.5795 de 1995, que segundo o blog Brasil Candomblé Verdade, seria celebrado em 19 de junho.
Fui pro Google.
Nada. Nem por decreto, nem por número, nem por variação nenhuma.
Ou seja, o decreto simplesmente não existe — pelo menos não nos registros que o Google consegue alcançar.
Aí entram as técnicas que a gente vai aprendendo de tanto pesquisar.
Depois de cavar um pouco mais, descobri que existe sim um "Dia do Baobá", mas comemorado em 19 de junho apenas na cidade de Recife-PE, conforme a Lei Nº 17.099 de 22 de junho de 2005.
A data marca uma tradição dos cultos afro-brasileiros recifenses dedicada às entidades da terra.
E faz sentido.
Alguns defensores dessa árvore trabalham com a ideia de que plantar um baobá no Brasil — principalmente em Pernambuco, tido como o território de maior concentração de baobás do mundo depois da África — significa fortalecer a luta pela reparação dos povos afrodescendentes.
Durante muitos anos, esses povos foram excluídos de políticas públicas voltadas à valorização e ao reconhecimento da cultura afro-brasileira.
O baobá (Adansonia digitata) é, para os afrodescendentes, um símbolo da manutenção de sua memória histórica e cultural.
O site que fala do suposto Dia Nacional do Baobá menciona que a árvore é originária da África, principalmente de Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Zimbábue, Botsuana e Senegal (onde o baobá é o principal símbolo do país), além de ser considerado Árvore Nacional da ilha de Madagascar, no Oceano Índico.
Isso me fez pensar: será que o tal decreto não seria de um desses países africanos?
Possível. Mas pense comigo — se aqui no Brasil já é difícil rastrear legislação, imagina nos meandros legais africanos.
E olha — se houvesse algo publicado em qualquer língua, o Google provavelmente teria me levado até lá, nem que fosse pra eu usar o Google Tradutor atrás da verdade.
Mas afinal, o que é o baobá?
Uma árvore originária da África, presente em Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Zimbábue, Botsuana e Senegal.
No Brasil, as espécies foram trazidas pelos negros e utilizadas em rituais de candomblé.
Além de Pernambuco, existem baobás nos estados de Alagoas, Rio Grande do Norte e Ceará, com registro de uns poucos exemplares em Goiás, Mato Grosso e Rio de Janeiro.
A copa do baobá é relativamente feia — parece que a árvore foi plantada de cabeça pra baixo.
E olha, existe até uma lenda que diz que os deuses puniram essa árvore por sua inveja, plantando a coitada de ponta-cabeça. Bonita, não é.
Mas imponente?
Com certeza.
Um baobá pode viver milhares de anos (muito embora cientificamente essa longevidade seja impossível de verificar pela ausência de anéis de crescimento na madeira), atingir até 25 metros de altura e 7 metros de diâmetro de tronco — com alguns exemplares chegando a 20 metros de diâmetro.
É conhecido como "árvore caixa d'água" por guardar até 120 mil litros de água.
Tudo isso faz do baobá muito mais do que uma árvore — é um símbolo vivo, carregado de significado para os africanos e afrodescendentes em geral.
O baobá ganhou projeção internacional por causa de um exemplar da Praça da República de Recife, tido como possível fonte de inspiração para o livro O Pequeno Príncipe, do aviador e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, quando de passagem pela capital pernambucana.
Porém, um baobá de Natal-RN, conhecido como "Baobá do Poeta", também disputa essa primazia — nas décadas de 1920 e 1930, o escritor francês teria sido hóspede da então proprietária do terreno onde está a árvore.
Baobás se desenvolvem em zonas sazonalmente áridas e são árvores de folha caduca, perdendo as folhas durante a estação seca.
Produzem uma fruta chamada mukua (ou fruto do baobá), que tem no interior um miolo seco comestível — sem sumo, desfaz-se na boca e tem sabor agridoce, adocicado com uma ligeira acidez.
O fruto é rico em vitaminas e minerais.
Dissolva a mukua em água fervente e deixe esfriar — pronto, você tem uma bebida fresca bastante apreciada em vários países.
Em Moçambique, o fruto recebe o nome de malambe na língua xi-nyungwe da província de Tete.
Sua polpa branca seca no próprio fruto e é utilizada na alimentação em tempos de escassez, sendo também referida como cura para a malária.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: