Você sabe o que um carpinteiro do século I tem a ver com uma lei brasileira de 2012?
O Dia Nacional do Artesão, celebrado em 19 de março, foi instituído pela Lei nº 12.634 e tem raízes no antigo "Dia do Artesão" do Estado do Rio de Janeiro — que muitos chamavam, erroneamente, de "Dia Mundial do Artesão", e que depois foi rebatizado como "Dia Estadual do Artesão".
A escolha de março não é coincidência: o dia 19 é de São José, padroeiro dos artesãos por ter exercido, ele mesmo, a profissão de carpinteiro.
Artesanato é o trabalho manual com matéria-prima natural — ou simplesmente o que um artesão produz.
Parece simples assim. Mas o conceito carrega uma tensão que dura séculos.
Com a industrialização, foi sendo estreitado: artesão passou a ser identificado, sobretudo, com quem fabrica objetos da cultura popular.
Originalmente, era um negócio de família.
O artesão era dono do ateliê, das ferramentas e de todo o processo — do preparo da matéria-prima até o acabamento.
Sem divisão de trabalho, sem especialização. Às vezes tinha um aprendiz ao lado.
Às vezes, só ele e a família.
O artesanato se divide em erudito, popular e folclórico, e aparece nas formas mais variadas: cerâmica utilitária, funilaria popular, trabalhos em couro e chifre, trançados e tecidos de fibras vegetais e animais, fabricação de farinha de mandioca, monjolo de pé d'água, engenhocas, instrumentos musicais, tintura popular.
Também se manifesta em pinturas e desenhos primitivos, esculturas, trabalhos em madeira, pedra guaraná, cera, miolo de pão, massa de açúcar, bijuteria, renda, filé, crochê, papel recortado para enfeite, entre outros.
A história do artesanato começa com a própria história humana.
A necessidade de produzir objetos de uso cotidiano — e até adornos — foi a primeira expressão da criatividade humana como forma de trabalho.
Os primeiros objetos feitos pelo homem eram artesanais.
Isso remonta ao neolítico, por volta de 6.000 a.C., quando o homem aprendeu a polir pedra, fabricar cerâmica e desenvolver a tecelagem com fibras animais e vegetais.
No Brasil, pesquisas identificaram uma indústria lítica e fabricação de cerâmica por etnias de tradição nordestina que viveram no sudeste do atual Piauí nesse mesmo período.
A partir do século XIX, o artesanato migrou para as oficinas — espaços onde aprendizes viviam com o mestre-artesão, que detinha todo o conhecimento técnico.
Em troca de mão de obra barata e fiel, o mestre oferecia conhecimento, vestimentas e comida.
Desse modelo surgiram as Corporações de Ofício, organizações formadas pelos mestres de cada cidade ou região para defender seus interesses.
A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, mudou o quadro completamente.
O trabalho foi fragmentado na linha de montagem. O artesão deixou de ver o produto nascer — passou a apertar parafusos, e só.
As condições de trabalho pioraram, e a remuneração foi lá embaixo.
Mas nem todo mundo aceitou isso em silêncio.
Karl Marx e John Ruskin — um filósofo prussiano e um crítico de arte britânico, improvável dupla — criticavam duramente essa desvalorização.
Para eles, o artesão tinha algo que o trabalhador industrial perdia de vez: era dono do seu processo.
Da matéria-prima, das ferramentas, do resultado.
Isso não tem preço.
William Morris, designer têxtil, poeta e ativista socialista inglês, fundou o grupo de Artes e Ofícios na segunda metade do século XIX.
Associado ao movimento britânico Arts & Crafts, Morris valorizou o trabalho artesanal e se opôs ativamente à mecanização — tornando-se um dos principais nomes do revivalismo das artes têxteis e dos métodos tradicionais de produção na Europa.
O artesanato brasileiro é um dos mais ricos do mundo — e não é força de expressão.
Garante o sustento de famílias inteiras, está enraizado no folclore e revela, peça por peça, quem somos como povo: nossos usos, costumes, tradições e as marcas de cada região do país.
Os índios são os artesãos mais antigos do Brasil.
Dominavam a pintura com pigmentos naturais, a cestaria, a cerâmica e a arte plumária — cocares, tangas, peças inteiras feitas com penas e plumas de aves.
Da floresta diretamente para o corpo. Se isso não é artesanato em estado puro, o que é?
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