19 de março. Poucos sabem disso fora do Rio Grande do Sul e de São Paulo — os únicos estados brasileiros que transformaram a data em lei.
No RS, a Lei Nº 12.784 de 2007 oficializou o Dia do Artesão. Em São Paulo, vieram duas: a Nº 14.485 de 2007 e a Nº 16.594 de 2016.
O RS ainda vai além e reserva uma "Semana Estadual do Artesanato" inteira para o tema.
A origem provável está no antigo Dia do Artesão do Estado do Rio de Janeiro — que muita gente ainda chama erroneamente de "Dia Mundial do Artesão" —, depois transformado em "Dia Estadual do Artesão" e associado a São José, padroeiro dos artesãos.
O motivo: ele era carpinteiro.
Na definição mais direta, é o trabalho manual usando matéria-prima natural.
Mas com a mecanização da indústria, o sentido foi se estreitando, e hoje o artesão é identificado principalmente como quem produz objetos da cultura popular.
Tradicionalmente, o artesanato tem caráter familiar.
O artesão é dono dos meios de produção — a oficina, as ferramentas —, trabalha em casa com a família e participa de todas as etapas: do preparo da matéria-prima até o acabamento final.
Sem divisão do trabalho, sem especialização para nenhum produto específico.
Às vezes um ajudante ou aprendiz ao lado, mas nada além disso.
O artesanato pode ser erudito, popular ou folclórico, e aparece em formas muito variadas:
A história do artesanato é, na prática, a história do próprio ser humano.
Desde que alguém sentiu a necessidade de produzir um objeto útil — e adornar o que criava —, o trabalho manual foi a forma mais básica de expressão.
Os primeiros objetos feitos pelo homem eram artesanais.
Simples assim.
Isso já aparece no período neolítico, por volta de 6.000 a.C., quando o homem aprendeu a polir a pedra, fabricar cerâmica e dominar a tecelagem de fibras animais e vegetais.
No Brasil, pesquisas identificaram uma indústria lítica e fabricação de cerâmica por etnias de tradição nordestina que viveram no sudeste do atual Piauí no mesmo período.
A partir do século XIX, o artesanato se concentrou em oficinas.
Um pequeno grupo de aprendizes vivia com o mestre-artesão, detentor de todo o conhecimento técnico — e em troca de mão de obra barata e fiel, o mestre oferecia conhecimento, vestimentas e comida.
Foi desse modelo que surgiram as Corporações de Ofício, organizações que os mestres de cada cidade ou região formavam para defender seus interesses.
Com a Revolução Industrial, o artesanato levou um baque.
O trabalho virou linha de montagem, o artesão perdeu a relação com o processo inteiro — e, com isso, a identidade do que produzia.
As condições pioraram bastante, com baixa remuneração e péssimas perspectivas para quem ainda tentava sobreviver do ofício.
Mas nem todo mundo aceitou isso calado.
Karl Marx e o crítico britânico John Ruskin criticaram abertamente essa desvalorização — para eles, o artesão tinha algo que o operário industrial jamais teria: possuía os meios de produção e se identificava com o que criava.
William Morris foi mais além.
Designer têxtil, poeta e ativista socialista inglês, ele fundou o grupo de Artes e Ofícios na segunda metade do século XIX, tentando valorizar o trabalho artesanal em oposição à mecanização — e se tornou um dos principais nomes do revivalismo das artes têxteis e dos métodos tradicionais de produção na Europa.
O artesanato brasileiro é um dos mais ricos do mundo — mas o que muita gente não percebe é que ele ainda garante o sustento de milhares de famílias, não como nostalgia, mas como trabalho real e cotidiano.
Por isso, entender de onde veio e o que quase o destruiu faz diferença.
Os índios são os artesãos mais antigos do país.
Usavam a pintura com pigmentos naturais, a cestaria e a cerâmica — além da arte plumária, presente nos cocares, tangas e outras peças de vestuário feitas com penas e plumas de aves.
No Dia do Artesão, vale lembrar: cada peça carrega uma história e uma técnica que nenhuma linha de montagem consegue reproduzir.
Se você tem acesso a algum artesanato regional, vale conhecer de perto — e, de preferência, comprar direto de quem faz.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: