27 de outubro.
Uma data que não consta no calendário oficial, mas que faz diferença existir.
A população negra ainda enfrenta riscos que o restante da população raramente considera — mesmo com todos os avanços na saúde pública.
O Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra foi criado em 2006 por organizações do movimento negro e trabalhadores da saúde com um objetivo bem direto: lembrar que as desigualdades raciais não desapareceram.
Dessa data surgiram também o Dia Nacional de Luta pelos Direitos das Pessoas com Doenças Falciformes e o Dia Estadual de Luta dos Portadores de Doença Falciforme no Amapá — porque as doenças falciformes atingem, sobretudo, a população negra.
A população negra brasileira carrega uma especificidade genética que a diferencia dos negros e afrodescendentes de outras partes do mundo.
Negros vindos de diversas regiões africanas — com características genéticas e culturais bem distintas entre si — se miscigenaram com brancos no Brasil, criando uma combinação genética única.
Esse processo aumentou a probabilidade de certos tipos de doença entre os brasileiros de pele negra.
Uma das mais incidentes é a anemia falciforme.
Origem desconhecida, mas provavelmente desenvolvida há milhões de anos na África.
É uma doença genética, hereditária, causada por uma anormalidade na hemoglobina dos glóbulos vermelhos — as células que carregam oxigênio dos pulmões até os tecidos do corpo.
Na anemia falciforme, esses glóbulos perdem a forma arredondada, enrijecem e se deformam em formato de foice.
Alongados e rígidos, nem sempre conseguem passar pelos pequenos vasos sanguíneos, bloqueando a circulação nas regiões próximas.
No Brasil, estima-se que 3 em cada 100 pessoas sejam portadoras do traço falciforme.
A doença em si atinge 1 em cada 500 negros brasileiros.
A OMS calcula que nasçam cerca de 2.500 crianças com doenças falciformes por ano no país — e que 20% delas morram antes dos cinco anos.
São números que incomodam.
E precisam incomodar.
A pesquisa pode ser feita em qualquer idade, mas o ideal é logo após o nascimento, pelo teste do pezinho — procedimento simples, gratuito e disponível no SUS.
Detectar cedo faz diferença real: medidas preventivas podem salvar muitas vidas e melhorar a qualidade de vida dos afrodescendentes.
O teste do pezinho pode salvar uma vida.
Vale repetir isso.
A anemia falciforme também aparece como fator de risco para aneurismas na base do cérebro — responsáveis por 80% dos casos de hemorragia subaracnóide, que representa 5% de todos os acidentes vasculares cerebrais e chega a 30.000 casos por ano só nos Estados Unidos.
A população negra tem, além disso, maior incidência de problemas cardiovasculares, e o risco cresce quando há histórico familiar.
Por isso mulheres negras grávidas também estão mais expostas à pré-eclâmpsia: um problema grave marcado pela elevação da pressão arterial, que pode surgir a partir da 20ª semana de gestação, mas é mais comum depois da 27ª.
A pressão alta, como se sabe, está diretamente ligada a doenças cardíacas.
Acredita-se que a pré-eclâmpsia seja causada por deficiências na placenta, órgão que nutre o bebê no útero.
Na forma leve, afeta até 10% das gestantes; na grave, 0,5%.
Os sintomas mais comuns são inchaço repentino no rosto, nas mãos ou nos pés, dor de cabeça persistente, alterações na visão como vista embaçada ou luzes piscando, dor forte na barriga abaixo das costelas e mal-estar geral.
Outra condição com maior incidência entre negros é a deficiência de G6PD (glicose 6-fosfato desidrogenase).
Nos Estados Unidos, 24% dos negros carregam a condição em forma latente — ou seja, têm um gene normal e outro irregular, como quem herda metade do problema sem saber que o carrega.
O caminho mais simples continua sendo o mesmo: procurar um médico e fazer exames periódicos.
Se você tem histórico familiar ou é afrodescendente, marque uma consulta — não deixe para depois.
A detecção precoce é, provavelmente, o melhor recurso que temos.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: