Quatro de janeiro. Sem decreto, sem oficialidade, a data entrou nos calendários brasileiros como Dia do Hemofílico.
O motivo tem nome: Henfil.
Henrique de Sousa Filho nasceu em 5 de fevereiro de 1944, em Ribeirão das Neves-MG, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Dois irmãos — o sociólogo Betinho (Herbert José de Sousa) e o músico Chico Mário (Francisco Mário de Sousa) — também herdaram da mãe a hemofilia.
O pai trabalhava numa penitenciária e numa funerária.
Dá pra imaginar que tipo de infância foi essa.
Henfil cresceu na periferia de Belo Horizonte, fez os primeiros estudos ali, frequentou supletivo noturno e chegou a se matricular em sociologia na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG — mas abandonou o curso depois de alguns meses.
Antes dos quadrinhos, foi embalador de queijos, contínuo em agência de publicidade, jornalista.
No início da década de 1960, começou a se especializar em ilustração e histórias em quadrinhos.
Hemofilia é uma condição em que o sangue simplesmente não coagula como deveria — por ausência ou deficiência do Fator VIII, um dos responsáveis por estancar hemorragias.
Quem tem a condição é muito mais suscetível a hemorragias, o que tornava as transfusões de sangue parte constante da vida de Henfil.
Foi numa dessas transfusões que ele contraiu o HIV, o Vírus da Imunodeficiência Humana, causador da AIDS — Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, doença que compromete o sistema imunológico.
Ele morreu em 4 de janeiro de 1988, vítima das complicações.
A convite do editor Robert Dummond, estreou em 1964 na revista Alterosa — foi ali que nasceu Os Franguinhos.
Em 1965, migrou para o Diário de Minas; em 1967, para o Jornal dos Sports, no Rio.
Publicou ainda em Realidade, Visão, Placar e O Cruzeiro.
Em menos de uma década, estava em todo lugar.
A partir de 1969, passou a colaborar com o Jornal do Brasil e com O Pasquim.
Foi aí que os personagens explodiram: o Brasil inteiro passou a conhecer os fradinhos, a Graúna e o Zeferino.
No início da década de 1970, em plena vigência do AI-5 — o Ato Institucional Nº 5, que garantia a censura dos meios de comunicação e dava carta branca aos órgãos de repressão para prender e torturar os chamados "subversivos" —, Henfil criou a revista Fradim, pela editora Codecri.
A publicação tinha como marca o humor crítico e satírico, com personagens tipicamente brasileiros: os fradinhos Cumprido e Baixim, a Graúna, o Bode Orelana, o nordestino Zeferino e, mais tarde, Ubaldo, o paranoico.
Além dos quadrinhos, Henfil passou pelo cinema, pelo teatro e pela televisão — foi até redator do TV Mulher, na Globo.
Mas foi na ditadura que ele se definiu de verdade: enfrentou o regime durante toda a vida, e pagou o preço por isso.
Henfil tentou seguir carreira nos Estados Unidos, onde passou dois anos em tratamento de saúde.
Sem espaço nos jornais tradicionais americanos, foi parar nas publicações underground.
Desse período saiu o livro Diário de um Cucaracha.
De volta ao Brasil, participou da revista Isto É, onde mantinha uma coluna chamada "Cartas da Mãe".
Em 1972, quando Elis Regina fez uma apresentação para o exército brasileiro, Henfil publicou em O Pasquim uma charge enterrando a cantora — apelidando-a de "regente".
Na mesma charge estavam outros nomes que, na ótica dele, agradavam aos interesses do regime: os cantores Roberto Carlos e Wilson Simonal, o jogador Pelé e os atores Paulo Gracindo, Tarcísio Meira e Marília Pêra.
Anos mais tarde, o cartunista disse que se arrependia de ter incluído Clarice Lispector e Elis Regina.
Henfil morreu no auge da carreira, com 43 anos e trabalho nas principais revistas do país.
Por isso a data não virou apenas uma entrada de calendário — virou um lembrete. De que a hemofilia ainda afeta milhares de brasileiros.
E de que alguns legados não cabem em decretos.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: