Você sabia que todo 17 de dezembro o Rio Grande do Sul celebra o Dia do Ecoturismo?
A data ainda divide o calendário com o Dia Estadual das Plantas Medicinais e o Dia do Bioma Pampa.
Mas por que essa data específica?
Porque foi nesse dia, em 1926, que nasceu em Porto Alegre um sujeito chamado José Antônio Lutzenberger.
Agrônomo, escritor, filósofo, paisagista, ambientalista.
Um cara que dedicou a vida inteira à conservação ambiental no Brasil e chegou a ocupar a Secretaria Especial do Meio Ambiente no governo Collor.
Ficou pouco tempo no cargo — porém o suficiente pra deixar marca.
Filho de imigrantes alemães, Lutzenberger se formou agrônomo com especialização em adubos e trabalhou por anos em empresas do setor — boa parte do tempo na Basf, viajando pelo mundo como técnico e executivo.
Vida confortável. Carreira sólida.
Até que no fim dos anos 1960, algo mudou.
Ele começou a enxergar o estrago que as políticas agrícolas causavam no meio ambiente. Em 1970, largou tudo. Emprego, estabilidade, salário.
Foi atrás da ecologia.
Em 1971, junto com um grupo de simpatizantes em Porto Alegre, fundou a AGAPAN — Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural.
Uma das primeiras associações ecológicas do Brasil.
A partir dali, depois de inúmeras campanhas, Lutzenberger ganhou projeção local, nacional e internacional.
Conseguiu conquistas importantes numa época em que ambientalismo era coisa que quase ninguém conhecia.
O cara tinha personalidade enérgica, combativa, e um preparo intelectual e científico sólido sobre o tema.
Como ignorar alguém assim?
A liderança dele no movimento se consolidou em 1976 com o livro Manifesto Ecológico Brasileiro: O Fim do Futuro? — sua obra mais conhecida.
Publicou muitos outros textos, palestrou pelos quatro cantos do mundo, sensibilizou audiências influentes e, ao mesmo tempo, despertou a fúria de outros setores.
Era chamado de "gênio pioneiro" e de "louco fanático" ao mesmo tempo.
Em 1987, se desligou da AGAPAN e criou a Fundação Gaia, dedicada a promover um modelo de vida sustentável.
Presidiu a organização até morrer.
Além disso, continuava envolvido em projetos locais e em outras regiões, e ainda conduzia uma empresa de reciclagem de resíduos industriais.
Em 1990, o recém-eleito presidente Fernando Collor de Mello convidou Lutzenberger para assumir a Secretaria Especial do Meio Ambiente.
Imagina o cenário: um ambientalista radical dentro de um governo que não era exatamente modelo de coerência.
A passagem dele pela pasta foi breve e muito controversa — mas deixou realizações importantes, como a demarcação das terras ianomâmis.
O problema é que Lutzenberger não poupava ninguém.
Muito menos o próprio governo. Seu estilo contundente de crítica não parava de trazer problemas.
Quando denunciou a corrupção no IBAMA, foi demitido, em 1992.
Afastado da política, seguiu com o trabalho independente.
E não pensem que ele ficou parado — até o fim da vida, era constantemente procurado para entrevistas, palestras e assessorias de todo tipo.
Manteve-se atento aos novos problemas ambientais que o progresso traz — e sugeria soluções que o mesmo progresso pode oferecer, se conduzido com sabedoria.
O reconhecimento veio de todo lugar.
Prêmio Nobel Alternativo, Ordem do Ponche Verde, Ordem de Rio Branco, Ordem do Mérito da República Italiana, doutorados honoris causa.
Lutzenberger é celebrado como um dos pioneiros e maiores ícones do movimento ecológico brasileiro.
Lutzenberger faleceu em 14 de maio de 2002, aos 75 anos, depois de várias crises de asma seguidas de um ataque cardíaco.
O governo do Rio Grande do Sul decretou luto oficial de três dias.
A morte foi noticiada no Brasil e no exterior, com muitos louvores ao seu gênio e à sua carreira.
Foi sepultado em um bosque no Rincão Gaia, em Pantano Grande-RS.
Nu, envolto em um lençol de linho, sem caixão. Ou seja, sem deixar marcas no ambiente — coerente com sua filosofia de vida até o último gesto.
E se existe uma forma de resumir quem foi Lutzenberger, talvez seja exatamente essa.
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