O que leva alguém que passou anos vendendo agrotóxicos pelo mundo a se tornar o maior nome do ambientalismo brasileiro?
Filho de imigrantes alemães, agrônomo especializado em adubos, executivo da Basf — José Lutzemberger passou boa parte da carreira viajando o mundo a serviço de uma grande empresa do setor agrícola.
Escritor, filósofo, paisagista e ambientalista: esses títulos todos vieram depois, quando ele tomou uma decisão que mudou tudo.
No fim dos anos 1960, começou a se desiludir com as políticas agrícolas e os danos que causavam ao meio ambiente.
Em 1970 largou o emprego; no ano seguinte, fundou a AGAPAN — Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural — junto com um grupo de simpatizantes em Porto Alegre, numa época em que ambientalismo ainda era coisa desconhecida do grande público.
O Dia do Bioma Pampa é celebrado em 17 de dezembro por causa dele: essa é a data do seu aniversário.
Lutzemberger nasceu em 17 de dezembro de 1926, em Porto Alegre, capital do estado onde o Pampa é o bioma predominante.
O dia foi instituído por decreto em 12 de dezembro de 2007 e coincide, no Rio Grande do Sul, com o Dia do Ecoturismo e o Dia Estadual das Plantas Medicinais.
À frente da AGAPAN, depois de inúmeras campanhas ecológicas, Lutzemberger ganhou projeção local, nacional e internacional.
Personalidade enérgica e combativa, com preparo intelectual sólido sobre o tema — era o tipo de figura que polarizava opiniões.
Em 1976, quando publicou o Manifesto Ecológico Brasileiro: O Fim do Futuro?, sua liderança no movimento se consolidou.
Palestrou pelo mundo inteiro, publicou muitos outros textos, sensibilizou audiências grandes e influentes — e foi chamado, ao mesmo tempo, de "gênio pioneiro" e de "louco fanático".
Em 1987, saiu da AGAPAN e criou a Fundação Gaia, dedicada à promoção de um modelo de vida sustentável, que presidiu até o fim da vida.
Conduzia também uma empresa de reciclagem de resíduos industriais.
Em 1990, Fernando Collor de Mello o chamou para a Secretaria Especial do Meio Ambiente.
A passagem foi breve e muito controversa, mas deixou realizações concretas — como a demarcação das terras ianomâmis.
O estilo contundente não mudou: denunciou corrupção no IBAMA e por isso foi demitido em 1992.
Afastado da cena política, continuou ativo até o fim — entrevistas, palestras, assessorias.
Atento aos novos problemas ambientais e às soluções que o progresso pode oferecer, se conduzido com sabedoria.
As distinções foram chegando: Prêmio Nobel Alternativo, Ordem do Ponche Verde, Ordem de Rio Branco, Ordem do Mérito da República Italiana, doutorados honoris causa.
Ele nunca parou.
Lutzemberger faleceu em 14 de maio de 2002, aos 75 anos, após crises de asma seguidas de ataque cardíaco.
O governo do Rio Grande do Sul decretou luto oficial de três dias.
Sua morte foi noticiada no Brasil e no exterior, com muitos elogios ao seu gênio e à sua carreira brilhante e frutífera.
Foi sepultado em um bosque no Rincão Gaia, em Pantano Grande, exatamente como pediu: nu, envolto em um lençol de linho, sem caixão.
Sem deixar marcas no ambiente — coerente, até o último momento, com a filosofia que defendeu a vida toda.
Cerca de 25% da superfície terrestre é coberta por campos — ou seja, um em cada quatro hectares do planeta é, na essência, isso: grama, vento e horizonte.
São ecossistemas entre os menos protegidos do planeta, porém dos mais relevantes.
Na América do Sul, pampas e campos se estendem por aproximadamente 750 mil km², compartilhados por Brasil, Uruguai e Argentina.
No Brasil, o Pampa existe só no Rio Grande do Sul.
Segundo o IBGE, ocupa 176.496 km² — 63% do território estadual e 2,07% do território nacional.
As paisagens variam bastante: de serras a planícies, de morros rupestres a coxilhas.
Além dos campos nativos que definem o bioma, há matas ciliares, matas de encosta, matas de pau-ferro, formações arbustivas, butiazais, banhados e afloramentos rochosos.
O bioma carrega ainda um imenso patrimônio cultural associado à sua biodiversidade.
A vegetação dos campos é estruturalmente mais simples do que a das florestas e savanas — mas não menos relevante.
Os campos têm papel fundamental no sequestro de carbono, no controle da erosão e como fonte de variabilidade genética para as espécies que sustentam toda a cadeia alimentar.
Por ser um conjunto de ecossistemas muito antigos, o Pampa apresenta flora e fauna próprias e grande biodiversidade, ainda não completamente descrita pela ciência.
São cerca de 3.000 espécies de plantas — e isso é muito mais do que o olho vê ao cruzar uma campanha aparentemente vazia.
O destaque vai para as gramíneas: mais de 450 espécies, como capim-forquilha, grama-tapete, flechilhas, brabas-de-bode e cabelos-de-porco.
Nas áreas de campo natural predominam também compostas e leguminosas, em torno de 150 espécies: babosa-do-campo, amendoim-nativo e trevo-nativo.
Nos afloramentos rochosos, há presença expressiva de cactáceas.
Entre as espécies típicas do Pampa, vale citar o Algarrobo (Prosopis algorobilla) e o Nhandavaí (Acacia farnesiana), cujos remanescentes existem apenas no Parque Estadual do Espinilho, em Barra do Quaraí.
Quase 500 espécies de aves habitam o bioma: ema (Rhea americana), perdigão (Rynchotus rufescens), perdiz (Nothura maculosa), quer-quero (Vanellus chilensis), caminheiro-de-espora (Anthus correndera), joão-de-barro (Furnarius rufus), sabiá-do-campo (Mimus saturninus) e pica-pau-do-campo (Colaptes campestres), entre outras.
Mais de 100 espécies de mamíferos terrestres também estão presentes, incluindo veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), graxaim (Pseudalopex gymnocercus), zorrilho (Conepatus chinga), furão (Galictis cuja), tatu-mulita (Dasypus hybridus), preá (Cavia aperea) e várias espécies de tuco-tucos (Ctenomys sp).
O Pampa abriga ainda espécies endêmicas — encontradas aqui e em nenhum outro lugar do planeta: o tuco-tuco (Ctenomys flamarioni), o beija-flor-de-barba-azul (Heliomaster furcifer) e o sapinho-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus atroluteus), entre outras.
Preservar o Pampa não é apenas uma questão ambiental — é garantir que essas espécies continuem existindo.
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