Você sabia que o Ceará tem um dia dedicado ao cuidador de idosos? Pois é.
Em 27 de setembro, o estado celebra essa data, criada pela Lei Nº 15.239, de 2012, em homenagem a um sujeito que morreu em 1660, em Paris — São Vicente de Paula.
Mas o que um santo francês do século XVII tem a ver com o cuidado de idosos no Ceará?
Ele foi sepultado na capela-mãe da Igreja de São Lázaro, na mesma cidade.
Mas quem foi esse sujeito cuja memória inspirou uma lei estadual quase quatro séculos depois?
Vicente de Paula nasceu em 24 de abril de 1581, numa terça-feira de Páscoa.
Sacerdote francês, canonizado em 1737 pelo Papa Clemente XII, ele se tornaria um dos grandes nomes da Reforma Católica na França.
Mas o caminho até esse reconhecimento foi tudo, menos tranquilo.
Desde cedo, Vicente chamava atenção pela inteligência e pela devoção.
Fez os primeiros estudos em Dax, na França, e em quatro anos já era professor no local.
Isso abriu caminho para concluir teologia na Universidade de Toulouse.
Em 23 de setembro de 1600, aos dezenove anos, foi ordenado sacerdote.
Logo depois da ordenação, veio a primeira reviravolta.
Uma viúva que gostava de ouvir suas pregações — e sabia que ele era pobre — deixou para Vicente sua herança: uma pequena propriedade e uma quantia em dinheiro, guardada com um comerciante em Marselha.
Ou seja, ele precisaria viajar para buscar o que era seu.
E foi aí que tudo mudou.
Em 1605, na viagem de volta de Marselha, o navio em que Vicente se encontrava foi atacado por piratas turcos.
Ele sobreviveu — mas a liberdade, não. Os turcos o levaram para Túnis e o venderam como escravo.
Imagine: um padre recém-ordenado, vendido de mão em mão. Primeiro para um pescador, depois para um químico.
Quando o químico morreu, o sobrinho herdou Vicente como se fosse um objeto — e o revendeu para um fazendeiro renegado, um ex-católico que tinha aderido ao islamismo por medo de ele mesmo acabar escravizado.
O fazendeiro renegado tinha três esposas.
Uma delas, turca, ouviu os cânticos de Vicente e quis saber o que significavam.
Quando descobriu que o marido havia abandonado o catolicismo, censurou-o por ter largado uma religião que, para ela, parecia tão bonita.
O fazendeiro se arrependeu da abjuração e propôs a Vicente uma fuga para a França.
A fuga só aconteceu dez meses depois, já em 1607.
Atravessaram o Mediterrâneo numa pequena embarcação e conseguiram chegar à costa francesa.
De Aigues-Mortes, seguiram para Avinhão, onde encontraram o Vice-Legado do Papa. Vicente voltou à condição de padre.
O renegado abjurou publicamente do islamismo e retornou à Igreja Católica.
Os dois passaram a viver com o Vice-Legado.
Quando este precisou viajar a Roma, levou Vicente e o renegado consigo.
Na cidade italiana, Padre Vicente frequentou a universidade e se formou em Direito Canônico.
O renegado foi admitido em um mosteiro, onde se tornou monge.
Ainda em Roma, o Papa precisou enviar um documento sigiloso ao rei francês Henrique IV — e escolheu Padre Vicente como fiel depositário.
Pela presteza, o rei o nomeou Capelão da rainha Margarida de Valois, a rainha Margot.
No cargo, Vicente distribuía esmolas aos pobres e visitava enfermos no hospital de caridade em nome da rainha.
A partir de 1610, após o assassinato de Henrique IV, Padre Vicente passou um ano na Sociedade do Oratório, fundada pelo Cardeal Pierre de Bérulle.
Mais tarde, Bérulle foi nomeado Bispo de Paris e indicou Vicente como vigário de Clichy, então um subúrbio parisiense.
Ali, Vicente fundou a Confraria do Rosário e visitava os doentes todos os dias.
A pedido de Bérulle, foi para o Palácio dos Gondi como preceptor dos filhos do general das galés.
E ali descobriu algo que mudaria sua trajetória.
Naquele período, a Marinha francesa estava em plena expansão — e a 'solução' encontrada para a falta de remadores era brutal: condenar pessoas às galés por delitos comuns.
Vicente se jogou nessa causa, lutando por mais dignidade para os prisioneiros, que viviam em condições sub-humanas.
Chegou a se colocar no lugar de um prisioneiro para libertá-lo.
As propriedades da família Gondi eram enormes.
Padre Vicente acompanhava a senhora de Gondi em visitas às famílias que moravam nessas terras — e percebeu como era necessária a confissão daquele povo.
Na missa dominical, fazia sessões de confissão comunitária.
Conseguiu a adesão de outros padres para ajudar, porque a demanda pelo sacramento era grande.
Por cinco anos, Padre Vicente esteve nas terras dos Gondi.
Depois foi a Paris e, mais tarde, a pedido de Bérulle, voltou à casa da família, onde permaneceu por mais oito anos.
A piedade de Padre Vicente levou-o ao cargo de Capelão Geral e Real da França.
Diante do abandono espiritual dos camponeses franceses, ele fundou em 1625 a Congregação da Missão — os Padres Lazaristas —, cuja missão era evangelizar o "pobre povo do interior" da França.
Porém, só sete anos depois, pela Bula Papal de 12 de janeiro de 1633, o Papa Urbano VIII reconheceu oficialmente a congregação.
Em 1643, o rei Luís XIII pediu para ser assistido em seu leito de morte por Padre Vicente.
Morreu em seus braços.
Depois disso, a regente Ana d'Áustria — de quem Vicente era confessor — o nomeou para o Conselho de Consciência, responsável por assuntos eclesiásticos da Regência.
A partir de um apelo feito por Padre Vicente durante um sermão em Châtillon, nasceu o movimento das Senhoras Damas da Caridade, a Confraria da Caridade.
A primeira irmã foi a camponesa francesa Margarida Nasseau, que contou com a orientação espiritual de Santa Luísa de Marillac.
Mais tarde, foi estabelecida a Confraria das Irmãs da Caridade, atuais Filhas da Caridade.
De apenas quatro irmãs nos primeiros tempos, a Confraria cresceu para centenas.
Vicente também organizou retiros espirituais para leigos e sacerdotes, por meio das famosas Conferências das Terças-Feiras, a Confraria de Caridade para homens.
O que moveu Vicente de Paula a vida inteira?
O amor a Deus e aos pobres. Simples assim. Ele criou inúmeras obras de caridade e dedicou cada dia à doação.
Muitos acreditam que sua maior virtude era a caridade — mas quem olha mais de perto percebe que a humildade suplantava tudo.
Vicente sempre buscava o bem da Igreja Católica.
Foi pai dos pobres e reformador do clero.
Para se ter uma ideia do alcance: foram inspiradas por ele a Associação dos Filhos de Maria, hoje Juventude Mariana Vicentina, criada a pedido da Virgem Maria durante uma aparição a Santa Catarina Labouré na noite de 18 de julho de 1830, e as Conferências Vicentinas, fundadas em 23 de abril de 1833 por Antônio Frederico Ozanam e seus companheiros.
Hoje, espalhadas pelo mundo inteiro, essas e muitas outras obras seguem vivas — alimentadas pelos exemplos e ensinamentos de um padre que foi escravo, capelão de rainhas, pai dos pobres e, acima de tudo, um homem que nunca parou de servir.
Por isso, em 1885, o Papa Leão XIII fez o que parecia inevitável: declarou Vicente "patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica".
Um título à altura de uma vida inteira dedicada aos que mais precisavam.
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