Mas o que faz um golpe de espada num quartel do Recife virar feriado estadual duzentos anos depois?
É por isso que Pernambuco comemora o 1º domingo de março como sua Data Magna.
A data é móvel — pode cair entre 1º e 7 de março de cada ano — e marca o início da Revolução Pernambucana de 1817, um movimento republicano e liberal que reuniu proprietários de terras, comerciantes e militares contra o domínio português sediado no Rio de Janeiro.
A comemoração tem base legal.
A Lei Nº 13.835, de 2 de julho de 2009, alterou a Lei Nº 13.386, de 24 de dezembro de 2007, e transformou o que era uma data fixa em 6 de março numa comemoração móvel — o 1º domingo de março.
O dia 6 permanece como ponto facultativo. Mas a lei vai além do calendário.
A mesma lei estabelece obrigações concretas.
A Assembleia Legislativa deve realizar sessão solene em 6 de março para entregar a Medalha Frei Caneca.
As redes de ensino precisam incluir no calendário letivo o registro da Data Magna e o estudo dos fatos históricos da Revolução de 1817, com liberdade para escolher as formas pedagógicas de celebração.
As celebrações cívicas sob responsabilidade do Poder Público incluem:
Além disso, a lei prevê seminários, palestras e concursos culturais, e institui a "Semana da História de Pernambuco", com participação estudantil e popular nos eventos programados.
A Revolução Pernambucana — também chamada de "Revolução dos Padres" ou simplesmente "Revolução de 1817" — não surgiu do nada.
Havia um problema concreto: crise econômica, absolutismo sufocante e um governo distante que esvaziava os cofres de Pernambuco para bancar festas da Corte no Rio de Janeiro.
As ideias iluministas espalhadas pelas sociedades maçônicas chegavam com força.
E os gastos da Família Real recém-chegada ao Brasil — que obrigava o governo de Pernambuco a enviar grandes somas ao Rio para custear salários, comidas, roupas e festas da Corte — geravam atraso no pagamento dos soldados e descontentamento generalizado.
Foi o único movimento separatista do período colonial que passou da fase conspiratória e chegou à tomada efetiva do poder.
No dia 6 de março de 1817, o capitão José de Barros Lima reagiu à ordem de prisão, matou o comandante Barbosa de Castro e, junto com outros militares rebelados, tomou o quartel e ergueu trincheiras nas ruas vizinhas para impedir o avanço das tropas monarquistas.
O governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro correu para o Forte do Brum, mas acabou se rendendo.
O movimento foi liderado por Domingos José Martins, com apoio de Antônio Carlos de Andrada e Silva e de Frei Caneca.
Dominado o governo provincial, os revolucionários se apoderaram do tesouro da província, instalaram um governo provisório e proclamaram a República.
Em 29 de março de 1817, uma assembleia constituinte foi convocada com representantes eleitos em todas as comarcas.
Ela estabeleceu a separação entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário; manteve o catolicismo como religião oficial, mas garantiu liberdade de culto; proclamou a liberdade de imprensa — uma grande novidade no Brasil —; e aboliu alguns impostos.
A escravidão, porém, foi mantida.
O sentimento de identidade crescia junto com a revolta.
Os pernambucanos passaram a usar aguardente no lugar do vinho e hóstia de mandioca no lugar do trigo nas missas, como forma de marcar quem eram e de onde vinham.
A revolução durou menos de três meses.
Mas a derrota teve um custo territorial que marcou o mapa do Brasil para sempre: a comarca de Alagoas foi desmembrada do estado por sanção do Rei Dom João VI de Portugal, como recompensa aos proprietários rurais que haviam permanecido fiéis à Coroa.
Apesar do golpe, os revolucionários abalaram a confiança de Dom João VI em seu projeto de império americano.
A Coroa nunca mais estaria certa de que seus súditos eram imunes às ideias que tinham subvertido a antiga ordem na Europa.
Um ano depois, todos os revoltosos foram anistiados — apenas quatro haviam sido executados.
Poucos anos mais tarde, vários desses mesmos revolucionários perdoados em 1817 participaram da Confederação do Equador — e foram sufocados de novo.
Pernambuco pagou caro por cada tentativa. O ímpeto republicano tinha um preço, e o estado continuou pagando por décadas.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: