Vicente Cândido Figueira de Sabóia não era dentista.
Era médico, cearense, e em 1880 assumiu a direção da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro com uma tarefa clara: modernizar o ensino.
Quatro anos depois, o trabalho dele ficou registrado no Decreto Imperial Nº 9311, de 25 de outubro de 1884 — e essa data virou o 25 de outubro que se comemora até hoje como o Dia da Saúde Dentária no Brasil.
Mas o que um decreto imperial de 1884 tem a ver com o dentista que você visita hoje?
A comemoração foi oficializada pela Lei Nº 3504, de 24 de dezembro de 1958, e existe para marcar o aniversário daquele decreto.
Hoje, a data concorre com o Dia Nacional da Saúde Bucal e tem celebrações em cidades e estados de todo o Brasil.
Quando foi instituída, contava com o patrocínio do Serviço Nacional de Educação Sanitária do Departamento Nacional de Saúde, além da colaboração da União Odontológica Brasileira e da Federação Nacional dos Odontologistas.
Sabóia assumiu a diretoria em 23 de fevereiro de 1880 e não perdeu tempo.
O problema era claro: ensino ultrapassado, sem laboratório, desconectado do que se fazia lá fora.
A resposta veio em etapas — atualizou o currículo, criou o laboratório de cirurgia dentária com equipamentos encomendados dos Estados Unidos e montou o laboratório de prótese dentária com crédito especial obtido pela Lei Nº 3141, de 30 de outubro de 1882.
O resultado ficou conhecido como "Reforma Sabóia" e mudou a estrutura das Faculdades de Medicina do Império.
A partir do Decreto Nº 9311, a Odontologia passou a ser um curso anexo — ao lado de Farmácia e de Obstetrícia e Ginecologia — nas faculdades do Rio de Janeiro e de Salvador.
Ou seja, foi esse decreto que criou os primeiros cursos de graduação em Odontologia no Brasil.
Por isso, 25 de outubro não é só uma data no calendário — é o marco de quando a odontologia brasileira deixou de ser ofício e virou ciência.
Mas Sabóia não estava sozinho nessa construção.
Thomas Gomes dos Santos Filho foi quem introduziu no Brasil a fórmula do vulcanite para uso como base de dentaduras — comercializado com os nomes Ebonite ou Vulcanite, em associação com dentes de porcelana.
A estética era pobre.
O gosto e o odor, piores ainda — quem usava sabia.
Porém o Vulcanite se manteve como principal material para confecção de bases de dentaduras por aproximadamente 75 anos, em parte porque Thomas também tratou de produzi-lo localmente, combatendo a escassez de material e os preços abusivos praticados à época.
Além disso, foi um dos três primeiros mestres de Odontologia no Rio de Janeiro, ao lado de Aristides Benício de Sá e Antônio Gonçalves Pereira da Silva.
Três nomes.
Uma profissão nascendo do zero.
O curso estabelecido pela Reforma Sabóia tinha três séries:
Em 1919, a Reforma Educacional deu origem à Deontologia Odontológica — o estudo dos princípios, fundamentos e ética profissional — e criou também a Cadeira de Medicina Legal aplicada à Arte Dentária.
Em 1889, a paulista Isabela Von Sidow, nascida em Cananéia, concluiu o curso na Faculdade de Odontologia do Rio de Janeiro.
Cinco anos depois da criação do curso, já havia uma mulher quebrando barreiras dentro dele. Tornou-se a primeira dentista formada no Brasil.
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