18 de outubro.
A data da morte de alguém virou celebração oficial no calendário capixaba — e toda vez que ela volta, o Espírito Santo para para lembrar uma mulher que escreveu com unhas e dentes.
Ela morreu nesse mesmo dia, em 1990.
A Lei Nº 5.812, de 22 de dezembro de 1998, instituiu o Dia da Literatura no estado.
O motivo: marcar o aniversário da morte de Virgínia Gasparini Tamanini, escritora, poetisa, roteirista, pintora, empreendedora e organizadora de bandas musicais e eventos — uma das figuras mais completas da cultura capixaba.
Filha de imigrantes italianos, Virgínia nasceu em 4 de fevereiro de 1897 na Fazenda Boa Vista, no vale de Canaã, em Santa Teresa-ES.
Cresceu no campo, sem acesso à escola tradicional — aprendeu com professores particulares o que a vida não lhe oferecia de graça.
Mais tarde, foi o irmão Américo — estudante da Faculdade Nacional de Direito no Rio de Janeiro — quem passou a supervisionar seus estudos.
Teve que voltar para casa no 2º ano, por força maior.
Porém, isso não mudou a trajetória.
Autodidata por necessidade e por vocação, ela dedicava o tempo livre ao estudo e à leitura.
Ainda jovem assinou um romance folhetim com o pseudônimo "Walkiria" — Amor sem Mácula —, publicado em capítulos semanais no jornal "O Comércio", de Santa Leopoldina-ES.
Casada, com filhos, com as lutas que a vida impôs ao lado do marido.
Ela continuou.
Entre 1929 e 1931 produziu quatro peças teatrais: Amor de Mãe, Filhos do Brasil, O Primeiro Amor e Onde está Jacinto? — todas encenadas com sucesso.
Em 1942 publicou o primeiro livro de poemas, A voz do coração.
Em 1949 veio O Mesmo Amor em Nossos Corações, em 1977 o romance Estradas do Homem, e em 1982 o livro Marcas do Tempo.
Mas o livro que ficou de vez foi Karina.
Um romance sobre a chegada e a vida dos imigrantes italianos no Espírito Santo, com referência direta à própria mãe dela, Catina.
Com inúmeras edições, Karina foi adotado em cursos de literatura de quase todos os colégios e faculdades capixabas — e também em cursos de Sociologia.
Ou seja: virou leitura obrigatória no estado.
Virgínia foi membro da Arcádia Espíritosantense, da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras, da Associação Espírito-Santense de Imprensa e da Academia Espírito-Santense de Letras — por isso, foi também sócia correspondente da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul.
Sua presença ultrapassava as fronteiras do Espírito Santo.
Recebeu o título de Cidadã Honorária de várias cidades capixabas, tem uma rua com seu nome em Ibiraçu-ES e foi agraciada com a Ordem do Mérito Marechal José Pessoa no grau de Comendador, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.
Que uma lei estadual tenha transformado a data da sua morte em celebração diz, por si só, o tamanho da obra que ela deixou.
Se você ainda não leu Karina, o Dia da Literatura no ES é uma boa desculpa para começar.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: