O que significa um país se tornar independente quando as tropas estrangeiras ainda ocupam seu território?
Em 22 de novembro de 1943, líderes políticos libaneses foram soltos das prisões francesas — e o Líbano começou, ali, a se entender como nação soberana.
Na prática, as últimas tropas estrangeiras só deixariam o território anos depois.
Todo ano nessa data o país comemora sua independência.
No Brasil, a celebração ganhou desdobramentos próprios em vários estados: é o "Dia da Comunidade Libanesa no Brasil" em nível nacional, o "Dia da Comunidade Árabe-Libanesa" no Pará, o "Dia da Comunidade Libanesa" no Mato Grosso do Sul, o "Dia da Comunidade Sírio-Libanesa" no Mato Grosso, o "Dia da Etnia Libanesa" e o "Dia da Solidariedade para com o Povo Libanês" no Rio Grande do Sul, o "Dia do Imigrante Libanês" no Espírito Santo e o "Dia da Solidariedade para com o Povo Libanês" também em São Paulo, entre outros.
O contexto de 1943 era confuso — e explosivo.
As autoridades francesas prenderam líderes políticos libaneses em meio a conflitos generalizados e à tentativa de um governo "nacional" de se estabelecer nas montanhas, sustentado pelo presidente sírio Shukri al-Kuwatli e pelos britânicos na região.
Manifestações violentas tomaram o país.
A pressão britânica foi determinante: o general francês Georges Catroux foi enviado às pressas a Beirute, e representantes da França Livre aceitaram o princípio da independência libanesa para restabelecer a ordem — ainda que a intenção de manter o controle sobre a região não tivesse desaparecido.
A independência política só se tornou oficial em 1º de janeiro de 1944, quando a França transferiu formalmente as competências administrativas aos governos sírio e libanês.
Mas as tropas especiais do Levante continuaram sob controle francês até o fim da guerra — a independência estava condicionada à conclusão de um tratado.
As últimas tropas francesas só deixaram o país em 1946.
Ou seja: independência formal e independência real são coisas bem diferentes.
A história começa antes de 1943.
Muito antes.
Em 1º de setembro de 1920, o general francês Henri Gouraud proclamou o Estado do Grande Líbano — uma expansão do chamado "Pequeno Líbano", que desde 1861 era uma província otomana separada e semiautônoma.
Essa condição durou até 1915, quando o regime otomano, já em desintegração, recuperou o controle direto sobre o território.
Entre 1920 e 1926, o Grande Líbano integrou a Síria mandatária (um território sob tutela francesa autorizada pela Liga das Nações, a antecessora da ONU).
Em 1926, com as mesmas fronteiras geográficas do Líbano atual, passou a se chamar República Libanesa.
Em 1941, a invasão da Síria e do Líbano pelas forças Aliadas eliminou as autoridades francesas do Regime de Vichy na região.
Por isso, entender a independência libanesa sem entender o papel britânico é entender só metade da história.
Foi sob pressão britânica que os representantes da França Livre deram seu aval à independência da Síria e do Líbano.
Porém, como já havia acontecido em 1943, aceitar o princípio não significou abrir mão do controle. Nunca significa.
Esse processo se arrastou por anos.
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