Como se identificava alguém com precisão antes da impressão digital?
Era um problema sem solução boa — e quem tivesse a resposta dominaria o sistema penal do mundo inteiro.
A resposta veio de Paris, em 1882, quando o criminologista Alphonse Bertillon lançou o Sistema Antropométrico — o primeiro método científico de identificação humana.
A ideia central era medir o corpo. Em milímetros.
Diâmetro da cabeça, comprimento da orelha direita, comprimento do pé esquerdo, estatura, envergadura.
Além das medidas, descrevia-se o formato do nariz, dos lábios, das orelhas, e registravam-se marcas como tatuagens e cicatrizes.
Tudo numa ficha que trazia também a fotografia do identificado.
O sistema funcionou por anos. Mas medições corporais têm limite: corpos mudam.
A datiloscopia — identificação humana pelas impressões digitais — nasceu de uma decisão pragmática tomada bem longe dos laboratórios científicos.
William James Herschel era magistrado britânico na Índia, às voltas com contratos descumpridos por negociantes nativos.
Em 1858, além da assinatura, ele passou a exigir que o contratante deixasse a impressão da mão no documento.
O primeiro foi Rajyadhar Konai, comerciante de Hooghly, em Jungipoor, na Bengala Ocidental. O contrato foi assinado em 28 de julho de 1858.
E foi cumprido.
No começo, Herschel provavelmente apostou na superstição dos indianos para forçar o cumprimento dos acordos com a Coroa inglesa — a novidade da exigência funcionava como um "encantamento".
Ou seja, a datiloscopia não nasceu de um laboratório: nasceu de um truque psicológico que deu certo.
Mas o resultado foi tão consistente que ele começou a estudar as impressões digitais de forma científica.
O governo britânico então enviou Francis Galton à Índia para analisar o material reunido por Herschel e desenvolver um sistema mais confiável do que a antropometria.
Galton lançou as bases científicas da impressão digital.
Rudimentar — mas com um mérito que contava: serviu de ponto de partida para tudo que viria depois.
Em 2 de maio de 1891, o articulista francês Henry de Varigny publicou na Revue Scientifique um artigo sobre o sistema de Galton, com sugestões práticas para o uso de impressões digitais.
O texto foi traduzido para o espanhol e publicado na Revista de Identificación y Ciencias Penales.
Juan Vucetich Kovacevich, encarregado da oficina de identificação de La Plata, na Argentina, leu o artigo e se convenceu.
Em 1 de setembro de 1891, apresentou seu método, batizado de Icnofalangometria.
Vucetich tomava as impressões dos dez dedos e classificava os tipos com símbolos literais e numerais:
Os símbolos literais identificavam os polegares; nos demais dedos, os numerais.
Em 8 de janeiro de 1894, o astrônomo austro-húngaro radicado na Argentina Francisco Latzina publicou no jornal La Nación, de Buenos Aires, um artigo chamado "Reminiscências platenses".
Elogiou o sistema de Vucetich, mas sugeriu mudar o nome.
Icnofalangometria — "medição do vestígio da falange" — não fazia sentido, já que o sistema não media falange nenhuma.
O nome que Latzina propôs: datiloscopia, do grego daktilos (dedos) e skopein (examinar).
Criada na Argentina, a palavra hoje existe em todas as línguas.
Em 1900, o comissário britânico de polícia Edward Richard Henry publicou em Londres o livro Classification and Uses of Finger Prints.
Seu sistema era independente do de Vucetich e adotava quatro tipos: Arcos, Presilhas, Verticilos e Compostos.
Em 1901, a Scotland Yard o adotou oficialmente.
A partir daí, o mundo se dividiu entre duas escolas: a latina de Vucetich e a anglo-saxônica de Henry.
Menos por questões técnicas, mais por afinidade cultural com os criadores de cada sistema.
Por isso, poucos países conseguiram escolher com base exclusivamente em critérios técnicos — e nenhum migrou de um sistema para o outro depois de adotado, porque o volume de trabalho que isso geraria inviabilizava qualquer tentativa.
A Espanha foi uma exceção.
Em 9 de março de 1909, ainda no início da formação de seus arquivos, o país tinha dois professores ensinando sistemas diferentes: Olóriz, em Madri, ensinava Vucetich; Molins, em Barcelona, ensinava Henry.
O impasse forçou um estudo conjunto. As conclusões:
As diferenças reais estavam na análise do datilograma, na sua classificação e, depois, no método de arquivamento.
Henry dava mais enfoque ao núcleo do datilograma; Vucetich, aos deltas.
Com o tempo, as duas escolas foram absorvendo as melhores práticas uma da outra.
Além disso, Henry desenvolveu o conceito de nível déltico — o Ridge Tracing, baseado na contagem de linhas entre a linha diretriz inferior do delta à esquerda com relação ao delta à direita.
Vucetich, por sua vez, não se preocupava com o núcleo dos datilogramas nos primeiros anos — só quando seu arquivo cresceu desmedidamente é que adotou a contagem de linhas (Ridge Counting), também de Henry, para subdividir as presilhas.
A diferença principal ficou claramente no método de arquivamento.
E você provavelmente carrega a herança desse debate no bolso: a carteira de identidade brasileira usa o sistema Vucetich até hoje.
No fim, o que separa dois sistemas igualmente eficazes não é a ciência — é a burocracia.
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