25 de março. Uma data que carrega mais história do que parece.
No Mato Grosso, ela é feriado oficial desde a Lei Nº 9.411, de 7 de julho de 2010 — criada em apoio ao Dia Nacional da Comunidade Árabe no Brasil. O objetivo é prestar tributo aos imigrantes árabes que chegaram ao país e deixaram marcas profundas na cultura, no comércio, nas artes e na sociedade brasileira. E essa presença moldou o Brasil de formas que a maioria das pessoas nem percebe.
A chegada dos primeiros imigrantes árabes ao Brasil teve como epicentro São Paulo — especificamente a rua 25 de Março e seu entorno, até hoje a área de comércio popular mais movimentada da capital paulista. Foram eles que popularizaram práticas que parecem óbvias hoje, mas não eram: alta rotatividade de estoque, grandes volumes de mercadoria, promoções e liquidações constantes.
Mas a contribuição dos árabes vai muito além do comércio.
A influência árabe se espalha por praticamente todas as áreas da vida brasileira. Na culinária são mais lembrados — o quibe, a esfiha, o tabule viraram comida do dia a dia de qualquer brasileiro. Porém sua presença é igualmente marcante na indústria, na literatura, no cinema, no direito e na academia. A quantidade de personagens árabes nas artes brasileiras já diz muito sobre o tamanho dessa contribuição.
Os árabes são um grupo étnico originário da Península Arábica — região constituída majoritariamente por desertos. Criar gado ou plantar em meio à areia não é exatamente viável. As dificuldades de sobrevivência empurraram parte da população para o nomadismo: caravanas que percorriam o deserto em busca de água e melhores condições de vida. Essas tribos ficaram conhecidas como beduínos.
Determinar se alguém é árabe, porém, não é simples. Três critérios entram em jogo, em graus diferentes:
A maioria das pessoas que se identifica como árabe o faz pela sobreposição dos critérios político e linguístico — ou seja, vivem em um país árabe e falam árabe. Há exceções em todos os sentidos: alguns berberes se consideram árabes; grupos que preenchem os dois primeiros critérios às vezes rejeitam a identidade com base no genealógico. Curdos e berberes, em geral, não se identificam como árabes — mas alguns sim.
A Liga Árabe foi fundada em 1945 no Cairo, por 7 países, com o objetivo de reforçar laços econômicos, sociais, políticos e culturais entre seus membros, além de mediar disputas e coordenar a colaboração para proteger a independência e soberania de cada estado. A organização reúne atualmente 22 estados — do Egito ao Iêmen, do Marrocos à Somália — com população total superior a 200 milhões de habitantes. Dois casos fogem à regra: a Eritreia participa como observadora desde 2003; a Síria está suspensa desde 2011, em consequência da Guerra Civil.
A própria Liga Árabe definiu o que é um árabe: "uma pessoa cuja língua é o árabe, que vive em um país de língua árabe e que tem simpatia com as aspirações dos povos de língua árabe."
O compositor e etnomusicologista palestino Habib Hassan — autor de livros e ensaios sobre música árabe e editor de revisões no Instituto Internacional de Música Tradicional, em Berlim — foi além: "A essência da cultura árabe envolve: língua árabe; Islã; tradição e costumes." E completou: "Um árabe, no sentido moderno da palavra, é alguém que é cidadão de um estado árabe, conhece a língua árabe e possui um conhecimento básico da tradição árabe, isto é, dos usos, costumes e sistemas políticos e sociais da cultura árabe."
A definição genealógica dominou durante a Idade Média. O polímata norte-africano Ibn Khaldun — astrônomo, historiador, jurista islâmico, filósofo, matemático, teólogo e estadista, entre muitas outras especialidades — usava o termo "árabe" apenas para quem tinha ascendência arábica original, excluindo os povos "arabizados". Com o tempo, porém, esse critério foi perdendo relevância.
Os árabes são formados, essencialmente, por muçulmanos, judeus e cristãos. Por isso, a ideia de que "árabe" é sinônimo de "muçulmano" é um dos maiores equívocos que circulam sobre esse povo — e no Brasil isso fica evidente: a maioria dos imigrantes árabes que chegou ao país era cristã.
A maioria segue o islã, religião surgida na Península Arábica no século VII, que se vê como uma restauração do monoteísmo original de Abraão — corrompido, na visão islâmica, pelo judaísmo e pelo cristianismo.
Os árabes cristãos também são numerosos. Nos Estados Unidos, cerca de dois terços dos árabes — especialmente imigrantes da Síria, Palestina, Iraque e Líbano — são cristãos. No Brasil, Argentina, Chile, Venezuela e Colômbia, a proporção de cristãos entre os imigrantes árabes é ainda maior, mas nesses países a população islâmica cresceu nos últimos tempos, sem ser necessariamente de origem árabe. De modo geral, a dispersão de imigrantes árabes pelo mundo — judeus ou cristãos — é uma consequência longínqua das Cruzadas.
A primeira menção documentada aos árabes está em uma inscrição assíria de 853 a.C.: o Rei Salmanaser III cita um rei chamado Gindibu de matu arbaai (terra árabe) entre os povos derrotados na Batalha de Karkar.
Nas tradições islâmica e judaica, os árabes descendem de Ismael, filho do patriarca Abraão. Genealogistas medievais árabes dividiram o povo em dois grupos:
A língua árabe clássica — na forma corânica conhecida hoje — surgiu da mistura entre o árabe original de Qahtan e o árabe setentrional, que havia absorvido palavras de outras línguas semíticas do Levante.
Nos séculos VIII e IX, os árabes — primeiro os Omíadas, depois os Abássidas — construíram um dos maiores impérios terrestres da história: do sul da França no oeste à China no leste, da Ásia Menor no norte ao Sudão no sul. Por esse vasto território, espalharam o islã e a língua árabe por conversão e assimilação. Muitos grupos passaram a ser chamados de "árabes" não pela ascendência, mas pela arabização — e, com isso, o próprio termo foi ganhando um significado cada vez mais amplo.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: