Esse era Vicente de Paula — e é por causa dessa data que a Igreja celebra o Dia da Caridade Católica todo ano em 27 de setembro.
No Brasil, a mesma data é chamada de Dia Nacional dos Vicentinos.
Mas quem foi esse homem que, nascido pobre no interior da França, acabou chegando a confessor de rainhas e defensor dos mais humildes?
Vicente nasceu em 24 de abril de 1581, numa terça-feira de Páscoa, e foi um dos grandes protagonistas da Reforma Católica na França do século XVII.
Desde cedo mostrou inteligência fora do comum: fez os primeiros estudos em Dax e, em quatro anos, já era professor do lugar — o que lhe abriu as portas para a Universidade de Toulouse, onde concluiu teologia.
Em 23 de setembro de 1600, aos dezenove anos, foi ordenado sacerdote.
Só seria canonizado mais de cem anos depois de morrer: em 16 de junho de 1737, em Roma, pelo Papa Clemente XII.
Antes da glória, vieram as provas.
Logo no começo do ministério, uma viúva que frequentava suas pregações — sabendo que ele era pobre — deixou para ele sua herança: uma pequena propriedade e uma quantia em dinheiro guardada com um comerciante em Marselha.
Em 1605, piratas turcos atacaram o navio durante o retorno de Marselha e capturaram Vicente.
Levaram-no a Túnis, onde foi vendido como escravo — primeiro para um pescador, depois para um químico.
Com a morte do químico, o sobrinho o herdou e o vendeu para um fazendeiro renegado que havia abandonado o catolicismo por medo da escravidão e adotado o islamismo.
Esse fazendeiro tinha três esposas.
Uma delas, turca, ouviu Vicente cantando e quis saber o que significavam aqueles cânticos.
Ao descobrir a história do marido com a fé, censurou-o por ter abandonado uma religião que, para ela, parecia tão bonita.
O fazendeiro se arrependeu e propôs a Vicente uma fuga para a França.
Dez meses depois, em 1607, os dois atravessaram o Mediterrâneo numa pequena embarcação e chegaram à costa francesa.
De Aigues-Mortes foram a Avinhão, onde encontraram o Vice-Legado do Papa.
Vicente voltou à condição de padre, o fazendeiro abjurou publicamente do islamismo e retornou à Igreja Católica, e os dois passaram a viver com o Vice-Legado.
Quando ele precisou viajar a Roma, levou os dois em sua companhia.
Na cidade, Vicente estudou e se formou em Direito Canônico.
O renegado entrou para um mosteiro e tornou-se monge.
Foi ainda em Roma que o Papa escolheu Vicente para entregar pessoalmente um documento sigiloso ao Rei Henrique IV.
Por conta disso, o rei o nomeou Capelão da Rainha Margarida de Valois — a Rainha Margot.
No cargo, Vicente distribuía esmolas aos pobres e visitava enfermos no hospital de caridade em nome da rainha.
A partir de 1610, após o assassinato de Henrique IV, Vicente passou um ano na Sociedade do Oratório, fundada pelo Cardeal Pierre de Bérulle.
Mais tarde, Bérulle tornou-se Bispo de Paris e indicou Vicente para vigário de Clichy, então um subúrbio da capital.
Lá, fundou a Confraria do Rosário e visitava doentes todos os dias.
Atendendo a um pedido do cardeal, mudou-se para o Palácio dos Gondi e virou preceptor dos filhos do general das galés.
A Marinha francesa estava em plena expansão e, para resolver a carência de remadores, era costume condenar criminosos comuns às galés — trabalho forçado em condições sub-humanas.
Vicente lutou por dignidade para esses prisioneiros e chegou ao ponto de se colocar no lugar de um deles para libertá-lo.
Um padre no lugar de um condenado.
Só para que ele fosse livre.
As propriedades dos Gondi eram imensas, e Vicente acompanhava a senhora da família em visitas às famílias que moravam nessas terras.
De um lado, a nobreza com seus palácios. Do outro, camponeses que mal tinham acesso a um padre.
Foi aí que percebeu o abandono espiritual em que viviam.
Nas missas dominicais, organizava sessões de confissão comunitária — e a demanda era tanta que precisou recrutar outros padres para dar conta.
Por cinco anos esteve nas terras dos Gondi.
Depois foi a Paris e, mais tarde, a pedido do cardeal, voltou à casa da família, onde permaneceu por mais oito anos.
Sua piedade heróica lhe rendeu o cargo de Capelão Geral e Real da França.
Em 1625, Vicente fundou a Congregação da Missão — os Padres Lazaristas, cuja missão era evangelizar o "pobre povo do interior" francês.
Porém, só sete anos mais tarde, em 12 de janeiro de 1633, o Papa Urbano VIII reconheceu oficialmente a Congregação por Bula Papal.
Em 1643, o Rei Luís XIII pediu para ser assistido em seu leito de morte pelo Padre Vicente.
Morreu nos seus braços.
Por isso, a Regente Ana d'Áustria — da qual Vicente era confessor — o nomeou para o Conselho de Consciência, responsável pelos assuntos eclesiásticos da Regência.
Inspirado pelo amor a Deus e aos pobres, Vicente criou inúmeras obras de caridade ao longo da vida.
A partir de um sermão em Châtillon, nasceu o movimento das Senhoras Damas da Caridade — a Confraria da Caridade.
A primeira irmã foi Margarida Nasseau, camponesa francesa que contou com a orientação espiritual de Santa Luísa de Marillac.
Dessa semente surgiu a Confraria das Irmãs da Caridade, as atuais Filhas da Caridade. Eram quatro no começo.
Hoje são centenas.
Além disso, Vicente organizou retiros espirituais para leigos e sacerdotes através das Conferências das Terças-Feiras — a Confraria de Caridade para homens.
Inspiraram-se nele a Associação dos Filhos de Maria, hoje Juventude Mariana Vicentina, e as Conferências Vicentinas, fundadas em 23 de abril de 1833 por Antônio Frederico Ozanam e seus companheiros.
Espalhadas pelo mundo inteiro, essas obras vivem dos exemplos e ensinamentos de São Vicente de Paula.
Ou seja: o que ele plantou em pleno século XVII ainda dá fruto hoje.
Muita gente associa São Vicente à caridade.
Mas sua humildade suplantava até isso. Pai dos pobres e reformador do clero, ele sempre buscou o bem da Igreja, nunca o próprio reconhecimento.
Em 12 de maio de 1885, o Papa Leão XIII o declarou "patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica".
E você — o que faz com o que tem nas mãos?
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