O feriado mais celebrado pelos evangélicos brasileiros nasceu dentro de um livro de orações anglicanas, na Inglaterra.
Por volta de 1549, o Arcebispo da Cantuária Tomás Cranmer incluiu no Book of Common Prayer um dia especial para a leitura da Bíblia.
Quase trezentos anos depois, essa tradição chegaria ao Brasil nas malas dos primeiros missionários evangélicos.
No calendário brasileiro, o Dia da Bíblia cai no 2º domingo de dezembro — uma data móvel, que pode ocorrer entre os dias 8 e 14 de dezembro de cada ano no calendário gregoriano.
A comemoração foi oficializada em todo o país pela Lei Nº 10.335, de 2001, mas alguns estados já tinham saído na frente.
Pará e Alagoas, por exemplo, já contavam com leis próprias antes disso.
Amazonas, Sergipe e São Paulo foram além e criaram o próprio "Dia Estadual da Bíblia".
A história de Cranmer com a religião inglesa é inseparável da história de Henrique VIII.
Foi ele quem ajudou a construir o argumento para a anulação do casamento do rei com Catarina de Aragão — a Princesa da Espanha e então Rainha Consorte da Inglaterra.
Esse rompimento foi uma das causas diretas da separação da Igreja Anglicana da Igreja Católica Apostólica Romana: o papa não queria o divórcio, Henrique VIII queria — e Cranmer escolheu o lado do rei.
Cranmer atuou nos reinados de Henrique VIII, Eduardo VI e brevemente de Maria I da Inglaterra.
Mas foi com Eduardo VI que ele viveu o auge da influência.
Com a ajuda de reformistas continentais, aos quais deu refúgio, promoveu reformas profundas na religião do país — inclusive desenvolvendo novos padrões doutrinais sobre eucaristia, celibato clerical, imagens nos locais de culto e veneração dos santos.
Foi nessa esteira de reformas que Cranmer incluiu, na 1ª versão do Book of Common Prayer, um dia especial dedicado à leitura do Livro Sagrado pela população inglesa.
A data escolhida foi o 2º domingo do Advento de Cristo — celebrado nos 4 domingos que antecedem o Natal.
Assim nasceu o Dia da Bíblia.
O 2º domingo de dezembro começou a ser celebrado no Brasil com mais constância a partir de 1850, com a chegada dos primeiros missionários evangélicos vindos da Europa e dos Estados Unidos para semear a "Palavra de Deus" por aqui.
A história protestante em terras brasileiras, porém, começa bem antes disso.
O 1º culto protestante nas Américas teria sido realizado em 10 de março de 1557, numa pequena colônia francesa chamada "França Antártica", na baía da Guanabara — hoje Rio de Janeiro.
A iniciativa foi do militar e aventureiro francês Nicolas Durand de Villegaignon, logo após a chegada de quase 300 franceses e alguns suíços, entre eles 14 huguenotes.
O pastor suíço Pierre Richier, enviado pelo próprio João Calvino, conduziu os trabalhos com o Salmo 5 cantado no estilo genebrino, usando como base do sermão o Salmo 27, versículo 4.
Durante o Império brasileiro, a liberdade religiosa para cultos protestantes era bastante restrita, o que impedia as manifestações públicas de evangélicos no país.
Mas depois de 1880, isso começou a mudar gradualmente — e o movimento evangélico ganhou espaço, levando o Dia da Bíblia junto.
Pouco a pouco, as denominações evangélicas foram institucionalizando a tradição do Dia da Bíblia em terras brasileiras.
A virada veio em 10 de junho de 1948, com a fundação da SBB — Sociedade Bíblica do Brasil —, criada por destacados líderes cristãos da época com o lema "Dar a Bíblia à Pátria".
Um lema simples. Uma missão que dura até hoje.
A partir daí, a entidade assumiu as atividades de tradução, produção e distribuição da Bíblia em todo o território nacional.
Ainda naquele mesmo ano, em 12 de dezembro de 1948, aconteceu uma das primeiras manifestações públicas do Dia da Bíblia no Brasil — realizada junto ao Monumento do Ipiranga, em São Paulo, sob influência direta do surgimento da SBB.
Hoje, o dia dedicado às Escrituras Sagradas é comemorado em cerca de 60 países.
Alguns cristãos, porém, observam o "Dia da Bíblia" em setembro — numa referência ao trabalho encomendado pelo Papa São Dâmaso a São Gerônimo para que ele revisasse o texto latino da Sagrada Escritura comparando-o com o original em hebraico.
O resultado foi a tradução conhecida como "Vulgata" — do latim vulgare, ou seja, uso comum.
A Bíblia feita para o povo.
Essa mesma tradução foi a escolhida por Johannes Gutenberg para estrear sua prensa tipográfica.
Em 30 de setembro de 1452, foi concluída a impressão do que é considerado a 1ª Bíblia produzida em série — e o 1º livro impresso da história.
O livro mais vendido de todos os tempos foi também o primeiro.
A Vulgata Latina de São Jerônimo, tanto na sua tradução quanto na sua impressão, é tida como um símbolo-chave de um momento de transição da história da humanidade.
As comemorações do 2º domingo de dezembro mobilizam milhões de cristãos no Brasil todos os anos — não só naquele dia, mas ao longo de toda a semana que o antecede.
A "Semana da Bíblia" ganhou status oficial em vários estados: é chamada de "Semana da Evangelização" em Alagoas e de "Semana Estadual do Evangelho" no Tocantins.
Além disso, o período conta com o "Dia Estadual do Evangélico" em Goiás, o "Dia do Ecumenismo Religioso" em São Paulo e o "Dia da Marcha para Jesus da Unidade da Aliança de Pastores e Igrejas-UAPI de Rocha Miranda" no Rio de Janeiro — e Sergipe já contou também com o seu "Dia Estadual do Evangélico".
Durante essa semana, milhares de pessoas participam de cultos, carreatas, concentrações, maratonas de leitura bíblica e distribuição de folhetos.
Se você nunca acompanhou uma Semana da Bíblia, vale pelo menos entender o peso cultural por trás de uma tradição que vem de 1549 — e que, séculos depois, ainda mobiliza milhões de brasileiros todo mês de dezembro.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: