Maria ouviu uma proposta. Não uma ordem — uma proposta. E disse sim.
Nove meses antes do Natal. Faça a conta: 25 de março, a solenidade da Anunciação do Senhor. A Igreja Católica celebra essa data recordando o momento em que Maria respondeu ao anjo Gabriel com um sim que mudaria tudo.
O episódio está no evangelho de Lucas:
> "Disse-lhe o anjo: O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível. Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela" (Lc 1,35-38).
A solenidade surgiu lá no século VI, na época do imperador Justiniano. O Papa Sérgio I trouxe a celebração para a Igreja Católica no fim do século VII, com uma procissão na basílica de Santa Maria Maior — aquela que guarda mosaicos do arco triunfal dedicados à maternidade de Maria.
Nove meses exatos antes do Natal. Mas quando a data coincide com a Semana Santa, a Semana de Páscoa, o Domingo de Páscoa ou algum domingo da Quaresma, a festa é transferida.
A narrativa de Lucas 1,26-38 sustenta toda a solenidade. E o que ela exalta, na raiz, vai além do sim de Maria — ela manifesta o sim definitivo de Deus para com a humanidade. A Anunciação expressa duas coisas ao mesmo tempo: a vontade divina de se revelar ao ser humano e salvá-lo, e a disposição humana de acolher essa revelação.
O relato de Lucas registra a origem de uma questão que ocupou as primeiras comunidades cristãs: a encarnação total do Verbo eterno de Deus no seio virginal de Maria. Ali se dá um diálogo entre o divino e o humano — Maria e o anjo, mensageiro de Deus.
Maria é interpelada sobre a vontade divina. Deus encontrou nela, uma jovem simples de Nazaré, graça diante de si. Mas aqui entra algo que importa — e muito: a liberdade humana, fruto do amor de Deus, não foi violada. Deus propôs uma missão. Maria, na sua total liberdade, aceitou realizá-la. Mesmo sem saber como tudo aconteceria.
Essa narrativa gerou debates intensos entre os Padres da Igreja. O objetivo ia além de defender a virgindade e a maternidade de Maria — o ponto central era a real encarnação e divindade de Jesus. Em 325 d.C., com o Concílio de Niceia, e depois em Constantinopla (381), o Credo Niceno-Constantinopolitano estabeleceu como sentença dogmática que o Verbo eterno de Deus, encarnado no seio da humanidade pela concepção virginal de Maria, era verdadeiramente o Filho de Deus.
A natureza de JesusEm Jesus, natureza humana e divina coabitavam sem confusão, porém em plena união hipostática. O pequeno carpinteiro de Nazaré era, na verdade, o Filho de Deus — inserido na história humana pela ação do Espírito Santo.
TheotokosFoi só em 431 d.C., no Concílio de Éfeso, que a Igreja proclamou solenemente Maria como Mãe de Deus (Theotokos). Ao defender a real encarnação do Filho de Deus por meio do sim de Maria, esse decreto acabou levando à instituição da festa litúrgica da Anunciação do Senhor. Por volta do século VI, o Pontífice Sérgio I introduziu definitivamente a solenidade no calendário litúrgico romano, celebrada todo ano em 25 de março — nove meses antes do Natal.
Graça para a humanidadeNo sim de Maria, o sim de Deus em favor da humanidade se realiza plenamente. Deus cumpre seu projeto salvífico no tempo e na história. Se por Eva veio a desgraça, por Maria se abriram novamente as portas da Graça.
Celebrar a Anunciação do Senhor é, antes de tudo, agradecer a Deus pelos benefícios que o sim de Maria nos trouxe. É contemplar a salvação realizada por meio de uma Mulher. O sim de Deus chegou até nós por meio de uma Mulher.
Esse sim mudou o curso da história. Nos possibilitou conhecer o Pai, revelado pelo Filho, no poder do Espírito Santo. E nós somos convidados a fazer o mesmo — mudar o curso da história pelo nosso próprio sim ao projeto de Deus.
Deus entre nósDeus quer habitar no mundo. Na nossa família, na nossa sociedade, no nosso país. Mas para que isso se realize, precisamos ser como a jovem de Nazaré: abertos e generosos para acolher a vontade de Deus na nossa vida.
E a pergunta que fica é direta: qual é o seu sim hoje? Porque um sim verdadeiro — mesmo pequeno — transforma a história.
Oração "Ó Virgem Santíssima, sempre disposta a fazer a vontade do Pai, com seu sim contribuíste para a salvação. Dai-nos a graça de fazer a nossa parte no plano salvífico também dizendo o nosso sim a Deus e ao seu chamado de amor. Amém."Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: