Você sabe por que o 1º de dezembro é tão importante no calendário da saúde global?
Essa é a data do Dia Mundial da AIDS — reconhecida pela OMS e oficializada pela Assembleia Geral da ONU em 1988.
Mas o significado vai muito além de uma resolução no papel. O objetivo: prevenção e controle da AIDS.
Na prática, a data ganha cor: monumentos ao redor do mundo se iluminam de vermelho.
No Brasil, Minas Gerais oficializou o "Dia Estadual de Prevenção da AIDS".
Nos EUA, o presidente Clinton assinou uma proclamação presidencial em 1995 — e desde então, todo presidente seguiu o mesmo caminho.
O recado é claro: a AIDS ainda exige atenção.
A história dessa data começa em agosto de 1987, em Genebra, na Suíça.
James W.
Bunn e Thomas Netter, oficiais de informação pública do Programa Global sobre AIDS (hoje conhecido como UNAIDS — Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS), apresentaram a ideia ao diretor do programa, Jonathan Mann.
Um ex-jornalista de televisão de San Francisco teria sugerido o 1º de dezembro por uma razão bem pragmática: nessa época do ano, a cobertura da mídia ocidental já tinha passado das eleições norte-americanas, mas ainda não tinha sido engolida pelo Natal.
Ou seja, a janela de exposição seria maior.
Nos dois primeiros anos, o tema do Dia Mundial da AIDS focou em crianças e jovens.
Essa escolha foi criticada por quem ignorava que pessoas de todas as idades poderiam se infectar com o HIV — mas, por outro lado, ajudou a aliviar parte do estigma em torno da doença e a reforçar o reconhecimento da AIDS como um problema que afeta famílias inteiras.
O UNAIDS se tornou operacional em 1996 e trouxe mais planejamento e promoção para a data.
Em 1997, ao invés de concentrar esforços em um único dia, o programa criou a Campanha Mundial da AIDS (World AIDS Campaign), voltada à comunicação, prevenção e educação durante o ano todo.
Em 2004, essa campanha se tornou uma organização independente.
A AIDS — sigla para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida — é causada pelo HIV, o vírus que ataca diretamente o sistema imunológico.
E aqui está o problema: no início, os sintomas podem parecer uma gripe comum.
Depois, vem um longo período de silêncio — sem sintomas visíveis. É justamente essa aparente normalidade que torna a doença tão traiçoeira.
Com o tempo, a doença vai minando o sistema imunológico. O resultado?
A pessoa fica extremamente vulnerável a infecções oportunistas e até câncer — condições que, em geral, nem chegam perto de quem tem a imunidade saudável.
O HIV é transmitido principalmente por relações sexuais sem preservativo (incluindo sexo anal e oral), transfusões de sangue contaminado, agulhas hipodérmicas, e de mãe para filho durante a gravidez, o parto ou a amamentação.
Em condições normais, sem a presença de ferimentos, fluidos como saliva e lágrimas não transmitem o vírus.
E a prevenção?
Continua sendo a arma mais poderosa que temos — programas de sexo seguro e troca de agulhas são o básico que funciona.
Cura ou vacina ainda não existem. O tratamento antirretroviral ajuda, sim: retarda a doença e aumenta a expectativa de vida. Mas não é simples.
Os medicamentos são caros e vêm com efeitos colaterais que pesam.
De onde veio o HIV?
Pesquisas genéticas apontam para o centro-oeste da África, no início do século XX.
A AIDS só foi reconhecida oficialmente em 1981, pelo CDC nos Estados Unidos — e a identificação do HIV como causa veio logo depois, na primeira metade da década seguinte.
Desde a descoberta até 2009, a AIDS causou a morte de aproximadamente 30 milhões de pessoas.
Em 2010, cerca de 34 milhões eram portadoras do vírus no mundo.
A AIDS não é só uma doença — é uma pandemia.
E o impacto vai muito além da saúde. Estamos falando de discriminação, prejuízo econômico e uma quantidade absurda de desinformação.
Até hoje tem gente que acredita que o vírus se transmite por um aperto de mão. Sério.
A doença também se tornou alvo de controvérsias religiosas e atraiu atenção médica e política internacional, com financiamento em larga escala, desde que foi identificada no início da década de 1980.
Imagine o cenário: estamos em 1981, nos Estados Unidos.
Médicos começam a notar algo estranho — homens homossexuais e usuários de drogas injetáveis aparecem com o sistema imunológico destruído, sem nenhuma explicação aparente.
Eles tinham sintomas de pneumonia causada pelo fungo PCP (Pneumocystis carinii), uma infecção oportunista incomum até então, que costumava atingir pessoas com o sistema imunológico muito debilitado.
Pouco depois, um número inesperado de homens gays desenvolveu o sarcoma de Kaposi, um tipo raro de câncer de pele.
Com o aumento dos casos de PCP e sarcoma de Kaposi, o CDC foi alertado e enviou uma força-tarefa para acompanhar o surto.
Nos primeiros dias, não havia nome oficial para a doença — o CDC se referia a ela pelas condições clínicas associadas, como "linfadenopatia generalizada persistente", ou "Sarcoma de Kaposi e infecções oportunistas".
Em determinado momento, cunharam a expressão "doença dos 4 H's", já que a síndrome parecia afetar haitianos, homossexuais, hemofílicos e usuários de heroína.
Na imprensa, o termo GRID (deficiência imunológica relacionada aos gays) também circulou.
Mas quando ficou claro que a AIDS não estava restrita à comunidade homossexual, o termo GRID caiu por terra.
A sigla AIDS (acquired immunodeficiency syndrome) — ou SIDA, em português — foi introduzida numa reunião em julho de 1982.
Em setembro do mesmo ano, o CDC passou a usar oficialmente o nome AIDS.
Em 1983, dois grupos de pesquisa independentes anunciaram que um novo retrovírus poderia estar por trás da AIDS.
Um era liderado pelo médico e pesquisador norte-americano Robert Gallo; o outro, pelo virologista francês Luc Montagnier.
Os dois publicaram suas descobertas na mesma edição da revista Science.
Gallo afirmou que o vírus isolado por sua equipe tinha forma muito semelhante a outros vírus T-linfotrópicos — que seu grupo já havia sido o primeiro a identificar.
Chamaram o vírus de HTLV-III.
Ao mesmo tempo, o grupo de Montagnier isolou um vírus a partir de um paciente com inchaço nos nódulos linfáticos do pescoço e fraqueza física, dois sintomas característicos da AIDS.
Contradizendo o relatório de Gallo, Montagnier e seus colegas mostraram que o vírus tinha características distintas.
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