Você já parou para pensar no que acontece todo 2 de fevereiro nas praias do Rio de Janeiro? A cidade inteira celebra o Dia do Presente das Águas.
A comemoração foi criada pela Lei Nº 1.017 e depois ratificada pela Lei Nº 5.645.
Ou seja, não é festa improvisada — tem respaldo oficial e entrou no calendário turístico da TurisRio.
A data tem tudo a ver com o Dia de Iemanjá celebrado em várias partes do Brasil.
Em Salvador, por exemplo, no bairro do Rio Vermelho, milhares de pessoas vestem branco e saem em procissão até o templo-mor, perto da foz do rio Vermelho.
Lá depositam espelhos, bijuterias, comidas, perfumes — todo tipo de agrado para a Rainha do Mar.
O festejo também foi declarado Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro pela Lei Nº 5.495.
A programação fica por conta das Secretarias de Turismo e de Ciência e Cultura, que além de organizar tudo, cuidam da segurança e do bem-estar do público.
Detalhe: o Dia de Iemanjá no Rio de Janeiro, oficialmente, cai em 31 de dezembro — conforme a Lei Nº 1.088 e a Lei Nº 5.645.
Ou seja, são duas datas distintas no mesmo estado.
Iemanjá é, talvez, o orixá mais popular do Brasil.
Seguidores de religiões afro-brasileiras a cultuam, mas gente de outras crenças também a respeita — e não é pouca gente.
Originalmente, ela é o orixá africano do povo Egbá, ligada aos rios e às desembocaduras de águas doces e salgadas.
Seu culto principal ficava em Abeokutá e em povoados na beira do rio Ògùn, na Nigéria.
Mas não se limita a um lugar: se manifesta em qualquer corpo d'água.
No Brasil, Iemanjá ganhou vários nomes: Iyá Ori, Mãe d'Água, Rainha do Mar, Sereia, Inaê, Aiucá, Maria Princesa do Aioká.
Às vezes é confundida com o Nkisi Ndanda Lunda e com a entidade Mami Wata.
E tem o apelido mais popular de todos: Dona Janaína.
No jogo do merindilogum, é identificada pelos odus Irosun e Ossá.
No candomblé, seu assentamento sagrado se chama igba yemanjá.
Ela se manifesta nos iniciados — os eleguns — ou em médiuns, por possessão ou transe.
A socióloga Rosamaria Barbara descreve assim: os orixás "vêm para dançar e mostrar os seus poderes, representando em gestos suas ações míticas".
Na mitologia yorubá, Iemanjá é filha de Olokun, soberana dos mares.
Em Cuba, os dois cultos se misturam tanto que, em certas ocasiões, parecem duas faces do mesmo princípio — compartilham atributos, mas divergem em arquétipo, com um papel primordial na criação atribuído a Iemanjá.
Foi justamente essa relação estreita com Olokun, somada à perda do culto a esta durante a diáspora africana, que fez Iemanjá ser associada aos mares no Novo Mundo.
No Brasil e em Cuba, o culto passou por reinterpretações profundas.
A ideia que se consolidou? Iemanjá é Mãe de todos os Orixás — e, por extensão, tem papel central na gênese da vida.
A professora de artes cênicas Denise Mancebo Zenícola resume bem: Iemanjá "representa o poder progenitor feminino; é ela que nos faz nascer, divindade que é maternidade universal, a Mãe do Mundo".
A influência de Iemanjá na cultura popular do Brasil é enorme — na música, na literatura, em tudo.
No processo de formação da cultura brasileira, ela foi ganhando aspectos sincréticos das várias influências étnicas que se encontraram no Novo Mundo.
Virou personagem mais brasileiro que africano, como se percebe nas representações de intelectuais, artistas e do folclore popular, que reuniram na sua imagem as "3 raças".
A Dona Janaína é uma personalidade à parte.
Sedutora, sereia dos mares nordestinos, com cultos populares simbólicos que nem sempre expressam uma liturgia real — esta, aliás, ainda conservada rigorosamente pelos cultos afro-brasileiros.
A professora de ciências sociais Teresinha Bernardo coloca de um jeito forte: Iemanjá "é mãe e esposa.
Ela ama os homens do mar e os protege.
Mas quando os deseja, ela os mata e faz deles seus esposos no fundo do mar".
Iemanjá é considerada o orixá mais popular do Brasil e de Cuba, festejada com grandes celebrações públicas.
Majestade dos mares, senhora dos oceanos, sereia sagrada, regente dos lares, protetora da família — e, para completar, Deusa das Pérolas.
São tantos títulos que dá para entender por que ela atravessa fronteiras de fé.
Por isso, todo ano, pescadores seguem a tradição e homenageiam Iemanjá com presentes, pedindo fartura de peixes e um mar tranquilo.
No fundo, é uma troca: respeito e oferenda de um lado, proteção e abundância do outro.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: