Você já parou pra pensar no que acontece quando a manhã parece absolutamente comum? 30 de agosto de 1997.
Um menino de 8 anos brincava com o primo na sala do sobrado da Vila Carrão, zona leste de São Paulo. Os pais trabalhavam.
Tudo normal — até não ser mais.
Não era.
Longe disso.
Um motoboy chamado Adelino Donizete Esteves — que inicialmente se identificou como Silvio da Costa Batista — invadiu a casa fingindo ser entregador de floricultura.
Armado, rendeu a babá e levou o garoto Ives Yoshiaki Ota.
Colocou a criança num carro e seguiu direto para a própria casa, que virou cativeiro.
Quem teria arquitetado tudo, segundo a Justiça, foi Paulo de Tarso Dantas, soldado da Polícia Militar.
Dantas fazia bico como segurança numa loja do pai de Ives, Massataka Ota — comerciante brasileiro nascido no Japão.
Por 500 reais a mais no orçamento doméstico, o policial conhecia a rotina da família de perto.
Frequentava até as festas de fim de ano que Massataka oferecia aos funcionários.
Dantas sempre negou envolvimento.
Porém, os indícios eram muitos — e pesados.
Quando chegaram ao cativeiro, Ives reconheceu Dantas.
Tinha 8 anos — oito anos — e reconheceu o segurança da loja do pai. Ou seja, a criança sabia quem era.
Esse reconhecimento, de acordo com o depoimento de Silvio, selou o destino do garoto.
Dantas teria ordenado a morte da criança.
Na madrugada seguinte, o motoboy ofereceu ao menino um copo de leite com chocolate misturado com calmante.
Ives adormeceu. Foi colocado num buraco cavado no chão do quarto de Silvio — embaixo do berço da enteada dele.
O motoboy disparou duas vezes contra o rosto do garoto.
Mesmo com Ives morto, os criminosos continuaram exigindo resgate da família Ota, prometendo libertar a criança.
O pedido inicial foi de 800 mil dólares.
Depois caiu para 80 mil.
Em 5 de setembro, enquanto negociava o resgate com Massataka num telefone público, Silvio foi preso.
Confessou tudo. Delatou Dantas e outro segurança da loja da família, o também soldado da PM Sérgio Eduardo Pereira de Souza.
Os dois policiais foram detidos no mesmo dia, enquanto trabalhavam numa loja de Ota no bairro São Miguel Paulista.
A polícia identificou que a pistola automática calibre 380 usada por Silvio durante o sequestro e um silenciador encontrado perto do berço na casa onde Ives foi morto pertenciam a Dantas.
Em 2 de junho de 1998 — data em que Ives completaria nove anos — o juiz da 17ª Vara Criminal de São Paulo, José Luiz de Carvalho, deu a sentença.
O motoboy Adelino Donizete Esteves, único que confessou, pegou 45 anos e seis meses por sequestro, homicídio, ocultação de cadáver, falsidade ideológica e falsa identidade.
Os dois policiais receberam 43 anos e dois meses cada, por sequestro seguido de morte e ocultação de cadáver.
Todos em regime fechado, sem direito a benefícios.
Porém, a partir de 6 de outubro de 2005, a 6ª Turma do STJ decidiu que os três passariam a cumprir pena em regime semiaberto.
Aqui a história muda de direção.
E muda de um jeito que desafia qualquer lógica previsível.
Massataka Ota, que inicialmente desejou a pena de morte para os assassinos do filho, criou uma fundação dedicada a ajudar crianças carentes e — pausa para absorver isso — criminosos condenados.
Como alguém chega a esse ponto?
Passou a visitar o presídio militar Romão Gomes, na Água Fria, zona norte de São Paulo, levando sementes e implementos agrícolas para o local onde dois dos assassinos de Ives cumpriam pena.
O "Movimento da Paz e Justiça Ives Ota", que depois virou Instituto Ives Ota, nasceu já em setembro de 1997.
Uma organização que surgiu para clamar por justiça e perdão ao mesmo tempo.
Na prática, o que o instituto faz?
Realiza palestras, reuniões de estudo e treinamentos, com foco em pessoas que sofreram violência.
Entre as finalidades principais:
Massataka também começou uma caminhada pelo Brasil para coletar assinaturas em favor da "Lei pela Prisão Perpétua Agrícola" e contra a redução da pena de 30 para 15 anos em casos de homicídio.
O movimento teve impacto nacional.
Quase 3 milhões de assinaturas foram entregues ao Congresso Nacional em 13 de maio de 1999.
O casal Ota — Iolanda (Keiko Ota) e Massataka — entrou na política.
Ela se elegeu Deputada Federal por São Paulo. Ele começou como vereador na capital paulista.
Por isso, os dois passaram a lutar de dentro do sistema por três bandeiras: defesa do direito de justiça para famílias vítimas de violência, maior rigor em crimes hediondos e escola em tempo integral com creches para todas as crianças.
O 30 de agosto se tornou o Dia do Perdão no Estado de São Paulo, instituído pela Lei nº 15.385 de 7 de abril de 2014, em paralelo ao "Dia Estadual do Perdão" criado pela Lei nº 14.498 de 21 de julho de 2011.
A explicação para a escolha da data não aparece de forma explícita no Projeto de Lei nº 674 de 2013.
Porém, basta ler o Projeto de Lei nº 467 de 2009 para entender, sem margem de dúvida, o motivo.
"A morte de Ives não foi em vão.
Ele nunca será esquecido.
Mais do que isso, o casal tem em mente que cada criança que possa ser salva por meio da escola, cada família que possa ser ajudada, contribuirá para que continue viva a memória de Ives."
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: