Um templo pagão dedicado a todos os deuses. Uma data de colheita celta. E, por baixo de tudo isso, o sangue dos mártires.
Como uma data com raízes tão visivelmente pagãs se tornou uma das festas mais universais do calendário cristão?
No fim do século II, os cristãos já tinham um hábito claro: honrar quem morria pela fé.
Não era devoção abstrata — era algo mais parecido com ligar para um amigo que mora em outro país e pedir que interceda por você junto a alguém influente.
Eles acreditavam que esses mártires estavam com Cristo no céu e que podiam interceder por quem ainda estava na terra. Por isso rezavam.
Pediam ajuda.
A morte não encerrava o relacionamento.
As comemorações aconteciam nas datas de aniversário de cada morte, geralmente no mesmo local onde o martírio tinha ocorrido.
Em Roma, isso significava rezar nas imediações do Coliseu.
Com o tempo, igrejas e basílicas foram erguidas nesses mesmos lugares — uma forma de guardar a memória e dar uma casa permanente à devoção.
Em 13 de maio de 609 ou 610, o Papa Bonifácio IV tomou o Panteão — o templo romano construído em honra a todos os deuses — e o consagrou a Maria e a todos os mártires.
Um gesto que inverteu o sinal de um símbolo pagão inteiro.
Mas a data de novembro veio depois.
O Papa Gregório III dedicou uma capela em Roma a Todos os Santos e fixou o 1.° de novembro como o dia da comemoração.
Ninguém sabe ao certo por que ele escolheu essa data específica, porém há uma hipótese forte: nesse mesmo dia, já se celebrava um feriado parecido na Inglaterra.
Os celtas tinham o Samhain.
Era uma festa de fim de colheita no início de novembro, que sobreviveu à cristianização da Grã-Bretanha sem muita resistência.
A Igreja britânica tentou redirecionar esse apelo popular acrescentando uma comemoração cristã no mesmo dia.
A Enciclopédia da Religião católica aponta que essa comemoração britânica medieval pode ter sido o ponto de partida para a popularização da festa em toda a Igreja.
Ou seja: o que nasceu como manobra local de substituição cultural virou celebração universal.
Em 835, o Papa Gregório IV tornou o 1.° de novembro feriado universal da Igreja.
Hoje é feriado escolar em pelo menos dez países: Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Filipinas, Maurícios, México, Peru, Polônia, Portugal e Seychelles.
O 2 de novembro tem uma história separada.
Foi fixado no século XI pelos monges de Cluny, na França.
A proposta era direta: rezar pelas almas no purgatório.
Porém, mesmo com o enquadramento cristão, a confusão popular persistia.
A Nova Enciclopédia Católica admite que "durante toda a Idade Média era popular a crença de que, nesse dia, as almas no purgatório podiam aparecer em forma de fogo-fátuos, bruxas, sapos, etc." A Igreja nunca conseguiu apagar completamente as crenças pagãs — e acabou, em muitos casos, pintando uma camada cristã por cima.
A Enciclopédia da Religião é direta nisso: "a festividade cristã, o Dia de Todos os Santos, é uma homenagem aos santos conhecidos e desconhecidos da religião cristã, assim como o Samhain lembrava as deidades celtas e lhes pagava tributo."
Mas o que a Igreja diz, afinal, que essa festa celebra — debaixo de toda essa história?
A Enciclopédia Católica descreve a data como uma festa em "honra a todos os santos, conhecidos e desconhecidos." Não apenas os canonizados.
Não apenas os que estão no calendário litúrgico.
O livro do Apocalipse oferece a imagem mais completa disso: uma multidão de pessoas de várias nações, com vestes brancas alvejadas no sangue do Cordeiro, diante do trono de Deus, cantando hinos de louvor e agradecimento — proclamando que a salvação procede do Cordeiro (Ap 7, 2-14).
São os que fizeram da própria vida uma oração, um testemunho, uma fé concreta na paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
É isso que o 1.° de novembro comemora.
Não uma festa de origem limpa, mas uma que, com toda a sua história tortuosa, aponta para algo real: a comunhão dos que viveram e morreram na fé.
Vale parar um instante nessa lista — e pensar em quem, na sua própria história, merece estar nela.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: