Você sabe como a santa mais venerada do Brasil foi parar no fundo de um rio?
Outubro de 1717.
Três pescadores no Rio Paraíba — Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso — estavam há horas sem pescar nada.
A situação era urgente: o 1º conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida, governante da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, passava pela cidade de Guaratinguetá-SP no Vale do Paraíba durante uma viagem até Vila Rica, e o povo queria prestar uma homenagem ao nobre português com peixe fresco na festa.
Antes de lançar as redes, os três rezaram à Virgem Maria.
Nada. Desceram o curso do rio até o Porto Itaguaçu e, já quase desistindo, João Alves jogou a rede mais uma vez.
No lugar de peixe, veio à tona o corpo de uma imagem da Virgem Maria — sem cabeça. Jogou de novo. Trouxe a cabeça.
As duas partes foram envolvidas num lenço.
A partir dali, a imagem ficou tão pesada que os três não conseguiam mais movê-la.
Mas os peixes vieram em tal quantidade que as embarcações ameaçavam afundar.
Essa foi a primeira intercessão atribuída à santa.
A imagem ficou na residência de Filipe Pedroso pelos 15 anos seguintes, e vizinhos se reuniam ali para orar.
Em 1732, Filipe entregou a imagem ao filho Atanásio, que construiu um pequeno oratório para abrigá-la — e todo sábado, a vizinhança se juntava para rezar o terço.
Os milagres foram se acumulando.
A devoção foi crescendo de boca em boca — sem rádio, sem internet, sem nenhuma campanha.
Só fé passada de vizinho em vizinho, até o nome Nossa Senhora Aparecida ganhar o Brasil.
Por volta de 1734, o vigário de Guaratinguetá organizou a construção de uma capela no alto do Morro dos Coqueiros, aberta à visitação em 26 de julho de 1745 — com a ajuda do filho de Filipe Pedroso, que não aprovava o local, mas colaborou mesmo assim, por considerar mais cômodo para os fiéis uma área mais próxima ao povoado.
Em 1842, a primeira capela já não comportava o número de devotos.
Começou a construção de um novo templo, inaugurado em 8 de dezembro de 1888.
Em 1893, por iniciativa do Bispo diocesano de São Paulo, Dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, esse templo foi elevado à dignidade de "Episcopal Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida".
Em 29 de abril de 1908 veio o título de "Basílica Menor".
A consagração aconteceu em 5 de setembro de 1909 — e com ela, algo incomum: os ossos de São Vicente Mártir, trazidos diretamente de Roma com permissão do Santo Papa.
Em 5 de março de 1967, comemorando 250 anos de devoção, o Papa Paulo VI ofereceu a "Rosa de Ouro" à Basílica.
O gesto foi repetido em 2007 pelo Papa Bento XVI, durante sua Viagem Apostólica ao Brasil.
Desde 28 de outubro de 1894, os padres e irmãos da Congregação dos Missionários Redentoristas trabalham no atendimento aos romeiros que chegam para rezar com a Senhora das águas.
Por decreto de 16 de julho de 1930, o Papa Pio XI proclamou Nossa Senhora da Santa Conceição Aparecida Rainha e Padroeira do Brasil — com o objetivo de promover o bem espiritual dos fiéis e fortalecer a devoção à Mãe de Deus.
Mas antes disso, em 8 de setembro de 1904, a imagem já havia sido coroada com uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, acompanhada de um manto azul ricamente adornado em ouro e pedrarias.
Esses itens haviam sido doados em 6 de novembro de 1888 pela Princesa Isabel do Brasil, cumprindo uma promessa feita em 8 de dezembro de 1868, por ocasião de sua primeira visita ao santuário.
A imagem retirada das águas do Rio Paraíba mede quarenta centímetros de altura e é feita de terracota — argila modelada e cozida em forno.
Especialistas que a analisaram atestam o estilo seiscentista.
Acredita-se que originalmente tinha policromia, como era costume à época, porém não há documentação que comprove isso.
A argila provavelmente veio da região de Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo.
Quando recolhida pelos pescadores, a imagem já estava sem a policromia original — provavelmente pelo longo período submersa no rio.
A cor de canela que apresenta hoje não é original: é o resultado de séculos de devoção.
Velas, lamparinas e candeeiros acesos por gerações de fiéis foram tingindo a imagem ao longo do tempo.
Ou seja, a aparência da santa foi literalmente moldada pela fé do povo.
Por estudos comparativos, a autoria foi atribuída ao Frei Agostinho de Jesus, monge de São Paulo conhecido pela confecção de imagens sacras.
As características que identificam o trabalho dele: a forma sorridente dos lábios, queixo encravado, flores em relevo no cabelo, broche de três pérolas na testa e porte empinado para trás.
O motivo pelo qual a imagem estava no fundo do rio provavelmente tem a ver com um costume do período colonial — imagens sacras de terracota quebradas ou defeituosas eram jogadas em rios ou enterradas.
A data de 12 de outubro como feriado nacional foi criada pela Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, para o culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.
A oficialização tem relação direta com a primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil e com a missa solene celebrada em 4 de julho de 1980, na qual o Santo Padre consagrou a nova Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida — revigorando a devoção à Santa Maria, Mãe de Deus.
A Basílica foi idealizada pelo arquiteto brasileiro Benedito Calixto em forma de cruz grega: 173 metros de comprimento por 168 metros de largura, naves com 40 metros e cúpula com 70 metros de altura.
A construção começou por volta de 1952, na cidade de Aparecida-SP.
É o maior santuário mariano do Brasil e o 4º mais visitado do mundo, com capacidade para até 45.000 fiéis.
Se você ainda não foi a Aparecida, talvez outubro seja uma boa desculpa para isso.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: