Essa é a data no calendário do Estado do Rio de Janeiro para celebrar a capoeira — e ela tem uma história mais complicada do que parece.
Mas você sabe por que agosto? Por que não novembro, mês em que nasceu o homem que tirou a capoeira da clandestinidade?
A Lei Nº 6.732 de 26 de março de 2014 mudou tudo.
Antes dela, o Rio comemorava o Dia da Capoeira em 23 de novembro, data apoiada pela Federação de Capoeira Desportiva do Estado do Rio de Janeiro e escolhida para marcar o aniversário de nascimento de Mestre Bimba.
A nova lei substituiu essa data para alinhar com uma comemoração que São Paulo já havia instituído no início de agosto.
O problema é que fui atrás da resposta: li o Projeto de Lei Nº 2.437 de 2013 da Assembleia do Rio e o Projeto de Lei Nº 666 de 1984 de São Paulo.
E não encontrei nada.
O texto paulista traz referências à cultura nordestina, à arte dos negros na capoeira, aos tempos da escravidão — mas nenhuma palavra que explique por que exatamente esse dia.
A lei também autorizava o Poder Executivo estadual a incentivar atividades comemorativas nas escolas da rede pública, podendo ainda firmar convênios com entidades ligadas à cultura afro-brasileira.
Manuel dos Reis Machado nasceu em 23 de novembro de 1900.
O mundo conheceu-o como Mestre Bimba — o criador da Luta Regional Baiana, que mais tarde ganhou os nomes de capoeira regional e benguela.
Mas a contribuição mais importante dele talvez tenha sido outra: tirar a capoeira da marginalidade. Ou seja, transformar um crime em cultura.
Antes disso, praticar capoeira era crime. O Artigo 402 do Decreto Nº 487 de 11 de outubro de 1890 não deixava dúvida:
> "fazer nas ruas e praças publicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal; Pena: de prisão cellular por dois a seis mezes"
Dois anos depois da queda desse artigo, em 1937, Bimba abriu seu "Centro de Cultura Física Regional" em Salvador.
O registro foi oficial: o curso de capoeira reconhecido como curso de Educação Física pela Secretaria da Educação.
Para chegar lá, ele havia apresentado a arte ao próprio Getúlio Vargas em Salvador.
O presidente ficou maravilhado — um capoeirista baiano diante do governo federal, convencendo o país de que aquilo era cultura numa época em que a prática ainda rendia prisão.
Pelo sistema da Confederação Nacional de Capoeira do Brasil, cada etapa da jornada do aluno é marcada pela cor da corda.
São 22 anos até chegar ao topo — e cada cor no cinturão carrega um pedaço desse caminho:
A cerimônia de batizado reúne alunos e professores numa grande roda.
Depois do jogo, o professor dá o nó na corda do aluno — aquela que ele deverá honrar dali em diante. É o equivalente a receber um diploma.
Só que o diploma foi ganho no chão, com o corpo.
A capoeira que eles praticam é dança, luta e arte marcial ao mesmo tempo.
Desenvolvida a partir do século XVIII por escravos africanos no Brasil — especialmente na Bahia —, ela nasceu como uma mistura de cantos, danças e movimentos de combate.
Por isso sobreviveu. Ninguém proíbe o que parece só uma dança.
Confira o calendário de feriados nas maiores cidades do Brasil: